28 de dez de 2009

O homem que eu amo


Inspirada num comentário

Detesto ser chamada de "Fabi". E o homem que eu amo sabe disso.
Também detesto pessoas que sempre citam "Los Hermanos", como se eles fossem o ápice da intelectualidade. Não são. Não gosto de "Los Hermanos".
O homem que eu amo sabe que, do nosso amor, a gente é que sabe. Os outros são os outros e só.
Gosto do mundo realmente intelectual e amo literatura e como o homem que eu amo sabe disso, me presenteou com o maravilhoso "Clarice,".
O homem que eu amo tem só 28 dentes. Ainda bem. Não confio em ninguém com mais de 30.
O homem que eu amo tem uma deliciosa extravagância: faz amor comigo quantas vezes eu quiser.
Ele ri escandalosamente. Aliás, a gargalhada do homem que eu amo é uma das coisas mais gostosas deste mundo.
O homem que eu amo coleciona CD's. Tem mais de mil.
Que bom.
Coleciono livros. Tenho menos de mil, mas, ainda assim, nenhum de nós pode reclamar dos excessos do outro.
O homem que eu amo fala sem parar. Sobre tudo. Até dormindo. Mas, não ronca.
Ele lê pra mim. Interpreta pra mim. Toca e canta pra mim.
O homem que eu amo abre a porta do carro para eu entrar. E me entrega as chaves para eu dirigir quando bebe.
O homem que eu amo fala inglês e se diverte porque eu falo russo.
Ele fica horas procurando um Blues chorão, do jeito que eu gosto, só para me agradar. Aí, ele se deita comigo e, de mãos entrelaçadas, ficamos nos adivinhando na penumbra, curtindo o som da gaita.
O homem que eu amo me deixou escolher o lado da cama, mas sempre rouba comida do meu prato.
O homem que eu amo me contou seus deslizes amorosos do passado.
Sei, inclusive, tudo sobre a casada e cretina, que o usou.
Aliás, cretina, além de ser um adjetivo feminino sinônimo de imbecil, quando derivada de cretinismo - que é uma doença crônica, causada pela insuficiência da glândula tireóide, o que pode explicar a obesidade - é a palavra que designa a pessoa enferma.
O homem que eu amo está com sobrepeso. Sua barriguinha, cultivada pelos anos de cervejadas em botecos, é um charme à parte.
O homem que eu amo sabe que eu sou brava e que não levo desaforo para casa e às vezes, só às vezes, fica incomodado com meus desatinos e, em particular, chama minha atenção como o pai faz com a criança arteira.
O homem que eu amo usa óculos. Eu também uso óculos. E nossas lentes ficam embaçadas quando nos beijamos.
O homem que eu amo não é só carne. Ele tem a alma mais linda do mundo.
Ele comemora seu aniversário no asilo, presenteando os velhinhos, passando horas super agradáveis com os que tem muito para nos ensinar.
O homem que eu amo é calmo, gentil e sofisticado. Sou nervosa, estúpida e relaxada. Ainda bem que os opostos se atraem.
O homem que eu amo também é um homem de fé, mesmo não se prendendo à religião nenhuma.
O homem que eu amo operou um milagre em mim e, contrariando todas as previsões, me fez mãe de novo.
Ele é o responsável pela aura de felicidade que me circunda novamente.
O homem que eu amo tem uma paciência de Jó, porque continua me amando mesmo eu sendo tão difícil.
O homem que eu amo é mais que meu marido, amado e amante. O homem que eu amo é meu amigo. Meu melhor amigo. Mas já lhe perguntaram se eu era sua filha e ele ficou grilado e eu dei risada.
O homem que eu amo tem algumas manias. Está sempre lavando as mãos, dirige lenta e cuidadosamente e dá uma risadinha curta quando algo o incomoda.
Ele joga tênis, é amigo do Léo e ia casar com a Lia. Mas ela ainda tem só três anos, então, até ela ter idade para casar, ele já pode estar viúvo, porque, enquanto a minha saúde é frágil, o homem que eu amo goza de ótima saúde.
O homem que eu amo sabe tudo o que é essencial sobre mim e isso é engraçado.
Nos conhecemos há tão pouco tempo nesta vida que a única explicação para nossa sintonia é o conhecimento adquirido ao longo de várias outras vidas.
O homem que eu amo é o homem que eu amo há milênios. Disso não tenho dúvidas.
Amo o homem que eu amo porque o admiro e porque ele tem todas as coisas, que um dia eu sonhei pra mim.
A cabeça cheia de problemas. Não me importo, eu gosto mesmo assim.
O homem que eu amo tem os olhos cheios de esperança, de um formato que mais ninguém possui.
Me traz meu passado e as lembranças, coisas que eu quis ser e não fui.
E eu que sempre fui tão inconstante, juro, para o homem que eu amo, que agora é pra valer.
Ele vai seguir comigo o meu caminho e viveremos a vida só de amor.
O homem que eu amo sabe que estou parafraseando Roberto Carlos, porque essa é a canção que ele canta para mim.

Futebol e Cultura Pop


Inspirada numa idiotice



Amavam-se, apesar das diferenças.
Ela, fanática por futebol.
Ele, fiel seguidor da Cultura Pop.
Aos domingos, ela assistia uma partida de futebol, enquanto ele navegava pelo vasto mundo Pop do Twitter.
Viviam tranquilamente assim.
O casamento era harmônico... até que um dia...
O time do coração dela deixou o campeonato escapar pelo vão dos dedos.
Ficou estressada.
Ele, alheio à batalha campal, lia avidamente uma entrevista "interessantíssima" de Mallu Magalhães.
Ficou empolgado.
- Amor, posso ler a entrevista da Mallu pra você?
- Agora?
- É. Já acabou o jogo.
- Não to com saco para as futilidades dessa menina.
- Mallu não é fútil. Ela tem várias referências. Conhece muitas coisas.
- Eu a acho enfadonha. As letras dela são pobres.
- Pobre é a cultura futebolística.
- Se a cultura pop tivesse a mesma organização do futebol, não estaria fadada a admirar criaturas idiotas como Mallu Magalhães.
- Ela não é idiota.
- Não? Então, idiota é você.
- Idiota é quem fica vendo 22 marmanjos correndo atrás de uma bola.
- Você é tão idiota. 20 correm atrás da bola, dois ficam nos gols.
- Que seja. Mas a Mallu não é idiota.
Uma cadeira virada e uma porta batida colocaram fim à discussão.
Afastaram-se por alguns momentos para que esfriassem a cabeça.
Quando reataram, fizeram o pacto:
- Nunca mais falaremos sobre futebol e cultura pop dentro de casa.
Depois de selado o acordo, o casamento só durou mais três meses.
Todo o amor que sentiam não foi suficiente para vencer o silêncio gerado pela falta de assunto.

16 de nov de 2009

Carolinas na madrugada


Inspirada numa lua-de-mel

A presente história é baseada na história "madrugada na padaria", de Fábio Shiraga


Ela escreveu a ele:

Me deu água na boca de pensar naquelas carolinas... e estremeci de lembrar a hora em que as trouxe pra mim. Boas recordações.

Ele fora correndo, passos largos e rápidos lá para o Empanadas.
Mal olhou para os lados, apesar de ter várias pessoas circulando ali pela Vila Madalena.
Ele gostava de observar as pessoas.
Não apenas a beleza das mulheres, mas os estilos diferentes, os tipos que ficam na calçada ou nos bares conversando, segurando seus copos, fumando na calçada, gesticulando...
Em inglês esta atividade tem até nome: people watching.
Mas, o que importava naquele momento, é que tinha alguém esperando por ele.
Mesmo que ela estivesse dormindo àquela hora, ela o esperava e ele queria estar com ela. Logo.
Parou, primeiro, na padaria 24 horas.
Ficou, ali, olhando a vitrine, pensando o que levar.
Alguns bolos estavam apetitosos, mas eram grandes demais e as fatias, refrigeradas, deveriam ser consumidas imediatamente ou colocadas na geladeira.
Julgou que os pedaços não estariam tão bons no outro dia, mesmo que o dia seguinte começasse dali a algumas horas.
Viu as carolinas recheadas com avelã.
Lembrou que ela, seu amor, tinha perguntado se ele gostava delas.
Comprou e saiu rápido para pegar as empanadas e desceu a rua segurando e equilibrando a bandeja.
Os passos largos e rápidos o faziam transpirar, mas ele não se importava.
Só pensava em estar com ela novamente.
Deixou a bandeja de empanadas e a sacolinha da padaria com as carolinas de avelã no balcão de hotel e foi buscar as bebidas em outra padaria.
Tinha fila no caixa.
Ficou com raiva da menina da frente que demorou para pagar, ficou procurando as moedas, depois decidiu pegar mais um sorvete.
Será que ela não tinha noção da sua pressa?
Ele tinha alguém lhe esperando, e ela pedira para que ele não se atrasasse!
As pessoas tendem a ser egoístas quando estão apaixonadas.
A guria da fila, a que procurava moedas, deveria lhe ceder o lugar, pois estava estampado em seu rosto que o amor da sua vida o esperava no segundo andar do prédio do outro lado da calçada.
Finalmente chegou sua vez. Pagou.
Os mesmos passos largos e rápidos o levaram para o quarto.
Subiu feliz, suando é certo, mas muito feliz.
Bateu na porta do quarto.
Segundos de expectativa.
Nada de ela responder.
Minutos de expectativa.
Nada de ela responder.
Desceu à recepção e pediu que ligassem no quarto.
- Boa noite, senhora. Poderia abrir a porta para seu marido? - avisou o recepcionista.
Subiu pulando os degraus de dois em dois.
Ela abriu a porta. Linda. De vermelho.
Agora já não tinha mais pressa.

Sim, ele também tinha ótimas recordações da noite em que lhe levou carolinas.

11 de nov de 2009

Quebra de rotina


Inspirada num acontecimento

Estava trabalhando.
Repartição lotada.
O trabalho era árduo.
Corredores cada vez mais lotados de pessoas esperando para serem atendidas.
O estresse tomava conta dela.
O burburinho de vozes chegava a ser ensurdecedor.
Um homem corpulento, pediu passagem e atravessou o corredor.
Silêncio absoluto.
Todos os olhares o acompanharam, sedentos de curiosidade.
Uma voz de trovão chama:
Fulana de Tal.
Entrega para Fulana de Tal.
Levantou os olhos do documento que preenchia.
Alguém apontou em sua direção.
O homem lhe estendeu os braços sorrindo.
Sem jeito, ela sorriu de volta.
Palmas.
Muitas palmas.
As pessoas que aguardavam estavam tocadas com a cena.
Ela derramou lágrimas.
Lágrimas de diamante.
Várias pessoas disseram:
- Feliz Aniversário!
Respondeu que não era seu aniversário.
Apenas estava amando e sendo amada.
Olhares de inveja caíram sobre ela.
Alguns sorriram, não por ela, mas por nostalgia.
Precisou parar o atendimento, por instantes, para buscar água e um vaso grande.
Um vaso bem grande.
Pronto.
As flores do seu amor estavam salvas.
Aproveitou a quebra da rotinha e tentou ligar para ele.
Aí, se deu conta de que ele estaria trabalhando naquele momento.
Com um suspiro, limitou-se a voltar ao lugar para, entre um atendimento e outro, rascunhar um agradecimento ao dono do seu coração.

26 de out de 2009

Reviravolta


Inspirada num conto


A chuva começou a cair gostosamente na janela.
Apertou mais forte o travesseiro contra o corpo.
Suspirou. Duas semanas atrás, com aquele barulhinho bom de chuva caindo na vidraça, só teria pensado em dormir.
Hoje, só sentia falta de estar nos braços dele.
Tornou a suspirar.
Um turbilhão de pensamentos e sentimentos a assolou.
A chuva ficou mais pesada.
O clarão de um raio iluminou o quarto.
Na penumbra, julgou ter visto um vulto.
O coração disparou.
Fechou os olhos.
Prendeu a respiração.
Sentiu medo.
Não. Não podia ser o fantasma dele.
Pensou em rezar, mas logo desistiu.
Não acreditava na relevância da oração mecânica e não se sentia bem para orar.
Abriu um olho. Já não divisava nada no escuro da noite.
A chuva abrandava.
Levantou-se.
Jogou um moletom sobre a camisola.
Pegou a chave do carro e dirigiu por meia hora até um lugar específico.
Munida de lanterna, esquadrinhou o terreno.
Estava tudo como deixara.
Histericamente riu. Risada de bruxa.
Sentiu um nó na gaganta.
Histericamente chorou. Lágrimas de crocodilo.
Caiu de joelhos na terra molhada.
Beijou o chão.
Sentia falta dele.
A chuva voltou a cair pesadamente.
Ficou imunda.
Voltou para o carro.
Dirigiu devagar na volta.
Se recompôs.
Ao chegar em casa, correu pro banheiro.
Banho fervendo.
Depois, incinerou as roupas enlameadas.
Precisava dormir.
Voltou a deitar.
Iria à delegacia logo pela manhã.
Participava da equipe de buscas desde que dera parte do sumiço dele.
Lembrou-se da cena fatídica.
O ciúmes.
A briga.
A arma.
O tiro.
A desova do corpo.
Se pudesse voltar atrás...
Não podia. Estava feito.
Só lhe restava dormir sozinha.

23 de out de 2009

Todos cantam para eles


Inspirada em várias canções

O dia já começara estranho.
Estava com dor de cabeça.
Tinha perdido a hora.
Foi para o trabalho sem querer ir.
Ao abrir o email, ele havia mandado uma música.
http://www.youtube.com/watch?v=Wq0FkmcT1Jc&feature=related

Ela ouviu e chorou.
Chorou porque teve medo do que estava sentindo.
E porque estava com ressaca.
E porque só o vira 4 vezes na vida.
E porque parecia que o conhecia desde sempre.
E porque ele havia visto seu lado ruim já.
E porque teve certeza que ele desistiria dela.
E porque não o beijou como queria.
E porque não o abraçou como queria.
E porque não falou tudo que queria ter dito.
E porque estava menstruada.
E porque seu dia anterior fora péssimo.
E porque o dia atual estava muito tumultuado.
E porque ainda precisavam conversar sobre algumas coisas.
E porque a voz de Bethania ressoava em sua cabeça: Eu não existo sem você.
E porque estaria super ocupada até às 16h.
E porque ele não estava lá naquele exato momento.
E porque não queria sentir tanto a falta dele.
E porque o telefone não parava de tocar e ninguém respondia.
E porque teria um compromisso acadêmico à noite.
E porque queria que ele soubesse.
E porque não fazia a menor idéia do que queria que ele soubesse.
E porque o coração estava acelerado.
E porque Marisa Monte cantava A sua no rádio.
E porque todos cantavam para eles agora.
E porque estava com sono.
E porque ficaria pensando nele o dia inteiro.
E porque todos os caminhos a encaminhavam para ele.
E porque teria que parar de escrever e voltar a trabalhar.
Suspirou fundo.
Lembrou-se de Céu.
Havia mandado uma mensagem a jato, às entidades do tempo.
E já fora verificado que nem mesmo haveria segundos.
E que os minutos seriam reavaliados e a cada suspiro seriam 10 contados.
Suspirou novamente. Mais fundo.
Esperava que o dia passasse logo para vê-lo e, finalmente, poder parar de chorar.

20 de out de 2009

Viagem


Inspirada numa vontade

Depois de muitos desencantos, o encontro deles havia sido encantador.
Rapidamente criaram laços.
Riam por qualquer coisa.
Conversavam por horas a fio.
Ele cantarolava.
Ela dançava mambo.
Pareciam duas crianças.
Eram duas crianças felizes.
Sem mais delongas, ela o convidou:
- Vamos fugir para Pasárgada!
- Pra onde?
- Para Pasárgada.
- Com você eu vou.
- Vamos já?
- Farei as malas. Quanto tempo em Pasárgada ficaremos?
- Que tal pelo tempo que durar? 
- Assim já cantava Marisa Monte.
- Paráfrase do Soneto da Fidelidade.
- Realmente, o poetinha já dizia isso.
- Tudo pronto para nossa partida?
- Quase tudo. Só uma pergunta: por que para Pasárgada?

Recitando Manoel Bandeira ela explicou:

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
e tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Já faz tempo que foram para lá e, pelo que dizem, de lá não pretendem voltar.

19 de out de 2009

O Jardineiro Fiel


Inspirada num trabalho


Nota: A presente postagem é fruto de um trabalho apresentado no curso de Letras para a disciplina Mídia e Educação, ministrada pelo Mestre dos Magos, Prof. Rofatto.
O trabalho quase na íntegra pode ser conferido no blog da turma:
http://dinossaurosdasletras.blogspot.com/2009/10/o-jardineiro-fiel-verdade-conveniente.html

O Jardineiro Fiel, baseado no livro do inglês John Le Carrè e filmado pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles (que a cada nova produção comprova seu inegável talento e maestria em trabalhos que demonstram qualidades próprias de um habilidoso, inteligente, criativo e sedutor artesão), levanta questões relativas aos duvidosos interesses e práticas de “fictícias” empresas de grande porte do setor farmacêutico.


Quando o diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes) termina sua palestra e se prepara para responder as perguntas dirigidas a ele pelo público ali presente, ele nem imagina que a história de sua vida está começando a ser reescrita.
Entre as pessoas que estão no recinto encontra-se Tessa (Rachel Weisz, em premiada e exuberante atuação), que virá a ser a mulher de sua vida e também a pessoa que modifica completamente a sua visão de mundo.
Enquanto ele é um ascendente jovem no complexo e disputado mundo da diplomacia internacional representando a Inglaterra no continente africano, sua jovem e sedutora esposa é uma ativista política envolvida em causas humanitárias no lugar mais explorado e desumano do mundo.
Essa explosiva combinação entre o talento, a argúcia e o engajamento de Tessa e as desigualdades e injustiças vividas pelos africanos, é o motor de uma intrincada trama de interesses econômicos escusos, de grandes indústrias farmacêuticas do primeiro mundo, e a morte/desaparecimento de pobres e desfavorecidos “cidadãos” africanos.
A partir de suas investigações a jovem Tessa chega a descobertas surpreendentes que envolvem não apenas bilhões de dólares em investimentos em pesquisa e aperfeiçoamento de remédios pelas indústrias que atuam nesses países africanos, mas também os governos de importantes nações do mundo ocidental “civilizado”, inclusive a própria Inglaterra...
Essas descobertas condenam a militante política à morte e, também, a indignidade perante seu próprio e amado esposo. Quayle, que além de suas reconhecidas habilidades no campo das relações entre países, é um devotado jardineiro a combater as ervas daninhas de seu impecável quintal tem que, a partir de investigações individuais, retomar a trilha de sua mulher.
Então ele entra no jogo dos bilhões em busca do resgate do nome de sua esposa e da verdade que envolve a morte de inocentes paupérrimos no já devastado e desolado cenário africano. Sua cabeça passa então a valer muito para os caçadores de recompensas e suas imunidades diplomáticas são então esquecidas e invalidadas...
Se não bastasse esse caráter crítico e questionador, O Jardineiro Fiel ainda nos coloca em contato com a devastadora realidade de um continente perdido, a África. Abandonada pelos países ricos, sobrevivendo à custa de doações que constituem migalhas, partilhada entre tiranos locais que nada mais são do que títeres do capital internacional, a África se decompõe e se torna cada dia mais terra de ninguém em grandes porções de seu território.
As reservas naturais africanas continuam (como durante todo o século XX) sendo pilhadas pelos modernos “Pizarros” e “Hernán Cortez” em seus bem cortados ternos e com modernos celulares e notebooks. O pior, no entanto, é perceber que ocorre o esgotamento progressivo das reservas humanas. Como autênticos “vampiros de almas”, os “investidores” internacionais “sugam” o sangue, as energias e utilizam os pobres e esquálidos corpos africanos numa nova versão da escravidão dos tempos coloniais...
Até que ponto “os fins justificam os meios”? Lucrar não é proibido. O que não pode ser admitido é que os lucros sejam obtidos a partir de qualquer tipo de exploração humana. Escravidão, baixos salários, condições insalubres, horas excessivas de trabalho e tantas outras indignidades e crimes contra o trabalhador e, principalmente ofensivas a própria condição humana devem ser extirpadas do mundo em que vivemos.
O Jardineiro Fiel é vacina que contém poderosos anticorpos que ajudam no combate à corrupção de valores e práticas.
Imunize-se!
Assista já!

15 de out de 2009

A sombra do vento


Inspirada num presente


Ao comemorar mais uma primavera, ganhou de presente do grande amigo um livro.
A capa acusava que se tratava de um Best Seller, com mais de 6,5 milhões de cópias vendidas no mundo.
Mas ela nunca tinha ouvido falar dele.
A contracapa avisava que a história tinha influencia de Poe e seus romances góticos.
Isso a seduziu.
O cenário era Barcelona, Espanha e o enredo girava em torno de um livreiro e seu filho e um autor e seus livros.
Suspense dos bons.
Muitas páginas.
Sentia-se realizada.
O livro passou a acompanhá-la.
Estava sempre na bolsa, ao alcance das mãos.
Exibia-o aos amigos.
O enredo na ponta da língua.
Julian Caràx, o personagem, lhe lembrava Julio Cortàzar, o escritor.
Aliás, sempre dizia que Cortàzar era a única coisa boa que a Argentina já havia dado ao mundo.
Ia dormir altas horas da madrugada, porque ficava lendo na cama.
O ritmo de leitura assemelhava-se ao que experimentara com "A menina que roubava livros".
E então aconteceu: ela adivinhou o final.
Faltavam 50 páginas ainda, mas ela já sabia como a história acabaria.
Chorou desiludida.
Abandonou o livro.
Sentiu raiva.
Começou outras leituras.
Desistiu.
Nada a empolgava.
Queria voltar a sentir aquele frio na barriga que o livro lhe proporcionara.
Acabou por retomar o livro.
A cada página, sua adivinhação se confirmava.
Antecipava na mente os acontecimentos seguintes... aquilo a estava torturando, mas não podia deixar o livro inacabado.
Aquela situação se arrastou por mais 10 dias e, no fim das contas, surpreendeu-se.
Não que o final da história tenha se alterado, mas, a forma como foi escrito encantou-a.
E ela e o livro fizeram as pazes.

14 de out de 2009

Normalmente


Inspirada num riso

Ela e seu fiel escudeiro foram ao cinema, num dia de semana, assistir "Os Normais 2".
A crítica que ouvira não era favorável.
Outros expectadores insistiam em comparar o filme com o seriado.
"Não chega nem aos pés", diziam.
Seu dia fora tão opressivo que precisava rir. Nem que fosse um riso forçado.
Ninguém na fila. Compraram os ingressos.
Foi à bombonière. Preços extravagantes. Recusou-se a pagar o que lhe pediam.
Desceu até uma grande loja de departamentos e abasteceu-se com chocolates, salgadinho e refrigerante.
Havia poucas pessoas na sala de cinema quando entraram.
Escolheram ótimos lugares.
Acomodou-se e organizou seu kit cinema.
As luzes apagaram.
A NOITE MAIS MALUCA DE TODAS surge na tela. Ela sorri.

Upside inside out

She's living la Vida Loca
She'll push and pull you down
Living la Vida Loca
Her lips are devil red
And her skins the color moca
She will wear you out
Living la Vida Loca
Living la Vida Loca
She's living la Vida Loca

Rui e Vani cantam o sucesso de Rick Martin, dando um show de dança e interpretação. A afinação, de tão patética, dá o acento cômico essencial à cena.
Ela ri. Escandalosamente, ela ri.
O resto do filme se desenrola sem grandes maravilhas ou problemas.
O que importa é que ela ri.
A primeira cena valeu o ingresso.
Ela ainda ri.
Ri e se reconhece.
No dia seguinte proclama: Vani sou eu!
Sim, normalmente, ela é uma versão de Vani.

Cotidiano


Inspirada numa cobrança

Fez um grande esforço para levantar da cama.
Olhou o relógio, 5h50.
Detestava acordar cedo.
Não conseguia entender o expediente começar às 7h.
Arrastou-se até o banho.
A água quente lhe devolveu um pouco o ânimo.
Lembrou-se que precisava escrever.
O que eu posso escrever?
Como recomeçar a anotar frases?
A palavra é o meu meio de comunicação e eu só poderia amá-la.
Jogo com ela como se lançam dados: acaso e fatalidade.
Clarice inundou seu pensamento.
Pensou no final trágico de algumas de suas histórias.
Lembrou-se das aulas de literatura.
Certamente era influencia de Poe.
Vários temas surgiram na mente.
A hora do banho sempre era produtiva.
Em voz alta elaborou várias histórias.
Mais uma vez irritou-se por ainda não ter providenciado um gravador.
Olhou para as mãos. Os dedos já estavam enrugados.
"Merda! Vou perder hora", pensou.
Apressou-se em desligar o chuveiro.
O banheiro estava tomado pelo vapor.
Alcançou a toalha. Secou o rosto.
Saiu do banho.
Escorregou.
O impacto da sua cabeça quebrou o vidro do box.
O sangue vivo misturou-se aos resquícios de espuma de sabão.
Sua vida acabava como suas histórias trágicas.

3 de set de 2009

Curto-circuito


Inspirada numa sobrecarga


Descalça e com roupa provocante, ela passou, cuidadosamente, o trinco na porta e certificou-se que as janelas estavam fechadas.
Retocou o batom, olhou-se no espelho e tirou o telefone do gancho.
Nada poderia atrapalhar aquele momento.
Prendeu os cabelos no alto da cabeça, para deixar a nuca sensualmente exposta.
Sentou-se em frente ao computador com cara de safada.
Fez login no Skype.
Deixaria tudo preparado para a hora que ele ficasse online.
Colocou um cd, especialmente gravado para aquele momento, no drive e a música encheu o ambiente.
Com cuidado, conectou os cabos do novo headphone comprado para aquele fim.
Acoplou a filmadora ao computador, para registrar todos os momentos.
Deu um pause na música e decidiu, enquanto esperava por ele, assistir um dos vários filmes salvos na memória do computador.
Das opções, julgou Bonequinha de Luxo a mais adequada.
Resolveu checar todos os hardwares.
A webcam apresentou problemas.
Que droga! Nada poderia falhar naquele momento, muito menos a webcam.
Irritada, afastou a cadeira e se levantou para checar o cabo.
Levou um choque. Caiu desmaiada.
O curto-circuito incendiou o estabilizador e as chamas logo chegaram às cortinas.
Em pouco tempo a sala estava tomada pelo fogo.
No fim das contas, a aventura virtual dela teve o fim quente que tanto desejava.

2 de set de 2009

G.P.S.

Inspirada num pedágio a mais


- Zeca Baleiro vai tocar, de graça, em Jaguariúna sábado.
- Mentira!
- Juro!
- Nós vamos, né?
- Claro que vamos.
Desligaram o telefone.
O coração dela estava disparado.
O amigo havia lhe dado a melhor notícia da semana. Do mês. Do ano!
Rapidamente, passou a notícia adiante.
Infelizmente, nem todos seus amigos sabiam apreciar a arte baleeira. Alguns riram.
Dois empolgaram-se. Um não pode ir. Outro foi. Foram em quatro.
Nunca haviam ido para Jaguariúna.
O caminho era desconhecido.
Levaram o G.P.S.
Saíram cedo, para não correr o risco de perder o show.
Alegres, contentes e cantando, pegaram a estrada. Estavam empolgados.
Ao entrarem na rodovia, a primeira surpresa: o G.P.S. mandava que retornassem.
Rindo, decidiram ignorar a máquina e seguir as placas.
Depois de algum tempo, o G.P.S. avisa para virarem à esquerda.
- Só se nos jogarmos da ponte! Estamos em cima de uma ponte!
- Desliga essa porcaria.
- Não, deixa ligado. Aqui na estrada a gente se vira, mas vamos precisar dele na cidade.
Depois de mais algum tempo, um deles comentou:
- Nunca pensei que fosse tão longe.
- Cara, tem mais um pedágio? Como assim? Esse governo explora a gente mesmo.
Pagaram o pedágio.
Depois de muito mais tempo...
- Tem alguma coisa errada! Bem vindo à Monte Sião?
- Meu, estamos perdidos!
- Pqp.
- Que eu faço agora? Não tem retorno!
- Dá um cavalo de pau na pista.
Pegaram a direção contrária.
- Olha, tem um posto ali.
- Posto salvador. Vou entrar nesse posto.
O posto estava à uns 20 metros de distância, mas o motorista deu uma guinada repentina à direita.
VRAAAAAAUMMMMMMM PLAAAAAAAAAAAAFT SOOOOOOOOOOOCK BUUUUUUUM!
- Puta desnível! Tadinho do meu carro! Quase matei o carro! E nem é aqui a entrada dessa merda de posto!
As gargalhadas eram incontroláveis! Resolveram seguir em frente.
- O G.P.S. desistiu da gente. Aponta três direções diferentes agora.
- Recalcula isso aí.
A rota é novamente programada no aparelho.
- Maldito pedágio! Tem que pagar a volta também! Se alguém aqui votar nesse governador de novo, apanha!
- Lá vem ela falar de política.
- Fica quieta e recalcula a rota aí.
- Já está recalculada. Vocês são uns alienados mesmo.
A voz eletronica do G.P.S. ressoa no carro "Siga em frente. Virar à direita a 1 quilometro."
- Será que é confiável?
- Mais confiável do que nós aqui, com certeza é.
- Se eu perder esse show, eu choro.
- Chora nada.
- Choro sim.
- Tem um posto rodoviário ali na frente. Vamos parar e perguntar.
Era a melhor decisão da noite.
- Desce comigo? To com vergonha de estar perdido.
- Deixa de ser bobo. Eles estão aqui para ajudar gente perdida. Vamos lá vai.
O motorista e amiga desceram do carro e, receosos, dirigiram-se à guarita.
- Boa noite seu guarda. Estamos perdidos e o GPS nos traiu. Por favor, qual o caminho para Jaguariúna?
Com uma olhadela de sarro o guarda dá as coordenadas.
Na volta para o carro, ela implica:
- Eu sabia que tínhamos que pegar no outro sentido.
- Você deveria estar dirigindo então, dona sabe-tudo.
- Dá a chave que eu dirijo.
- Nem morto.
Já no carro, tentam seguir as instruções do policial.
- Ele mandou passar por baixo da ponte.
- Eu sei, mas onde tem ponte aqui?
- Ali na frente tem um trevo. Vamos por ali.
- Tem trevo, mas não tem ponte.
Os quatro juntos, escolheram uma das três opções de caminho.
- Que escuridão! Pagamos uma fortuna de pedágio e essa estrada não presta nem pra ter iluminação!
- Somos quatro perdidos numa noite suja.
- Isso é filme, não é?
- É. Filme brasileiro. Dois perdidos numa noite suja. Com aquela atriz bonitinha de cabelo curto.
- Débora Falabela.
- Isso.
- É putaria?
- Ah, é filme brasileiro, só pode, né.
Divagando por outros assuntos, quase se esqueceram que estavam perdidos.
- Que lugar deserto. Parece estrada vicinal.
- Tem certeza que pegou a direção certa no trevo?
- Não tenho certeza de mais nada.
- O que diz o G.P.S.?
- Está mandando voltar.
- Que horas são?
- 21h20.
- Ai, meu Deus. Vamos perder o show.
- Não vamos perder nada. Pensa positivo.
- Volta nessa estrada mesmo. O GPS tá mandando voltar.
- A gente deveria é ter se jogado da ponte quando ele mandou.
- Vou voltar, mas é a última vez que sigo esse negócio.
- Pronto. O aparelho já está dizendo que estamos chegando.
- Chegando onde Judas perdeu as botas?
- Não, onde ele furou as meias.
- Vocês e essas frases feitas.
- Deixa de ser chata.
- Olha que placa linda: JAGUARIÚNA.
- Chegamos! Chegamos! Chegamos! Chegamos!
Chegaram e, como que por milagre, chegaram antes do início do show.
Zeca Baleiro atrasou, só para esperar por eles.
Por quase duas horas cantaram, dançaram e riram.
Aproveitaram e esticaram até o último segundo.
Agora teriam um novo desafio: achar o caminho de volta pra casa.

19 de ago de 2009

Caso de amor

Inspirada numa prescrição médica


O caso deles havia começado na adolescência.

Uma tia os apresentara.

Após o estranhamento inicial, comum em toda relação, eram vistos sempre juntos.

Ela era apaixonada por ele.

Seu dia só começava depois que beijasse os lábios quentes dele.

Eventualmente, se encontravam para beijarem-se no almoço também.

Nos dias nostálgicos, ele era seu consolo.

Nas tardes chuvosas, ele era sua companhia.

Nas noites aflitivas, ele era seu melhor amigo.

Até que a saúde dela começou a se deteriorar.

Após ver vários doutores, e ser submetida a vários exames, recebeu a ordem médica: precisava deixá-lo.

Achou que enlouqueceria.

Não conseguia lembrar como era sua vida antes dele.

Seria impossível substituí-lo.

Caiu em tentação.

Reataram.

Depois de 15 dias foi internada com colapso cardíaco e sobreviveu por milagre.

Agora não teria mais escolha.

Seria obrigada a abandonar o café.

11 de ago de 2009

Epidemia

Inspirada num exagero


Atchim.

A história toda começou com um espirro.

O pânico foi se espalhando pela cidade.

As aulas foram suspensas.

Os boatos falavam em centenas de mortos na cidade. Milhares no país. Milhões no mundo.

Templos religiosos ficaram vazios.

Ninguém mais se cumprimentava.

O cordial aperto de mãos estava proibido.

As informações oficiais eram desencontradas.

Alguns julgavam um absurdo tanto alarde.

Vários e-mails começaram a circular, divulgando quanto as empresas farmacêuticas estavam faturando com a pandemia.

Estava difícil segurar as crianças em casa.

O período de férias era marcado por grandes estréias no cinema.

Resolveram não aderir ao pânico.


Vinte dias depois, o H1N1 matou a família que foi ao cinema.

Justiça Divina

Inspirada numa parábola


Faltavam apenas mais 40km para chegar em casa.

Por seis dias estivera participando de um Congresso religioso.

Na mente, o olhar dos jovens que sabia ter inspirado durante suas palestras.

- Deus não dá o frio maior que o cobertor.

Sua fé sempre repetia isso àqueles que sofriam.

- Confie em Deus e Ele te proverá.

Sentia a alma leve e o dever cumprido.

Acreditava, piamente, que todas as mazelas da vida faziam parte da Justiça Divina.

Deus ama todos os seus filhos e, se eles sofrem, é porque precisam aprender algo.

A dor nas costas era resultado das 5 noites mal dormidas em cama de armar, sacrifício necessário para levar a palavra de Deus aos demais irmãos.

Crente nisso, sonhava com a recompensa: uma ótima noite de sono em seu colchão ortopédico com lençóis de seda e travesseiro de pena de ganso.

Na entrada da cidade teve uma idéia e, antes de seguir para casa, parou na locadora e escolheu alguns filmes bíblicos para assistir no seu recém instalado Home Theater.

Aumentou o som do MP3.

Sua cantora gospel preferida entoava, com voz de anjo, um novo cântico.

Chegou feliz em casa.

Ao abrir a porta, uma surpresa: a sala estava vazia.

Largou a bolsa no chão e correu para os demais cômodos.

Todos vazios.

Entrou em desespero.

Começou a chorar.

Esbravejou.

Amaldiçoou.

Blasfemou.

Caiu de joelhos no chão da imensa sala vazia.

Na parede, pichada a moral da história em letras maiúsculas:

CONFIE EM DEUS, MAS TRANQUE A PORTA AO SAIR.

30 de jul de 2009

Travessia

Inspirada numa preferência


Abriu a quarta garrafa de vinho com dificuldade.

Tomou um longo gole no gargalo.

Havia desistido da taça no meio da primeira garrafa.

Bebia sozinha. Formalidades eram dispensáveis.

Era um ritual passar o dia 30 de julho sozinha.

Sofrendo.

Chorando.

Neste ano, decidira embebedar-se.

Olhou para as fotos espalhadas na cama.

Deitou sobre elas.

Suas roupas ainda estavam úmidas do banho de chuva e as fotos grudavam nelas.

Teve medo de danificar as imagens.

Eram as únicas coisas dele que restavam.

Despiu-se.

Deu play no CD.

Milton inundou o ambiente.

"Quando você foi embora fez-se noite em meu viver.

Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar".

Milton era perfeito.

Lembrou-se, divertida, da interpretação de Bjork, de Travessia.


Preferia Milton. Sem dúvida.


Cantou junto com a música.

Aumentou o som.

"Solto a voz nas estradas, já não quero parar

Meu caminho é de pedras, como posso sonhar

Sonho feito de brisa, vento vem terminar

Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar"

Esmurrou o próprio peito e atracou-se com a garrafa.

Ingeriu mais meio litro.

Amontoou as fotos e beijou-as.

Pediu perdão para o menino que lhe sorria e continou a cantar.

"Vou seguindo pela vida, me esquecendo de você

Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver

Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer

Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver"

Rodopiou nua pelo quarto, sempre com a garrafa na mão.

Antes que a música chegasse ao fim, apertou a tecla repeat.

Milton reiniciava sua cantoria.

Ela reiniciava seu lamento.

A garrafa chegava ao fim.

Antes do final da música, ela já estava desmaiada em sua cama, segurando uma das fotos.

Acordaria, no dia seguinte, com o cabelo sujo de vômito.

A ressaca seria sua companhia.

E sua travessia recomeçaria.

29 de jul de 2009

Coração partido

Inspirada num número da sorte


A médica a atendeu no horário e isso lhe deu mais confiança.

Não queria admitir, mas estava em pânico.

O histórico familiar pesava.

Tentou agir naturalmente ao reponder todas as perguntas de rotina.

Demoradamente, a médica auscultou seu peito.

Começou a tremer.

Julgou que fosse o frio, já que estava sem blusa.

A médica segurou suas mãos.

- São sempre frias assim, suas mãos e suas unhas arroxeadas?

- Ô.

Foi tudo que conseguiu dizer.

- Precisamos medir sua frequência cardíaca.

E foi ligada a uma série de eletrodos.

Avisada de que o exame demorava um pouquinho, ficou refletindo sobre a vida.

Umas linhas engraçadas saiam do aparelho ao qual estava ligada.

Quantas vezes seu coração fora partido?

Resolveu enumerá-las:

1 - O amor que a traiu.

2 - O filho que morreu.

3 - O sonho que acabou.

4 - A paixão que partiu.

5 - A amiga que perdeu.

6 - A escola que deixou.

Seu coração fora partido seis vezes já.

Irritou-se, porque o número de vezes partido, dividido por sua idade, não dava um número inteiro.

Detestava conta fracionada. Nunca fora boa de matemática.

Com um suspiro, a médica sentenciou:

- Você precisa de uma cirurgia cardíaca de emergência.

Deu um sorriso. Seis partes. Ainda lhe sobrava uma.

Um gato tem sete vidas. Ela também haveria de ter.

27 de jul de 2009

Viuvez

Inspirada num exemplo


Num último gesto de amor, beijou-lhe os lábios já descarnados.

Ele deu seu último suspiro, afogado no soluço dela.

Era a terceira vez que ficava vúva.

Mas há de quem a chamasse viúva negra.

No auge dos seus 89 anos, possuia uma imponência que fazia estremecer até o mais valente.

Conheceram-se numa aula de dança de salão.

Ele, um senhor a procura de exercícios físicos.

Ela, uma professora exigente que expeimentava no ensino da dança, uma retomada do vigor da juventude.

Não se pode dizer que apaixonaram-se.

Eram maduros e sabiam que as paixões eram efêmeras.

Simpatizaram um com o outro e, da simpatia mutua, surgiu o amor.

O sexo, segundo eles, era a cada 30 dias, mas de excelente qualidade.

Beijavam-se em público. Na boca.

Era lindo de se ver.

Por set anos ela o amara e a ele dedicara toda sua atenção.

Foram felizes.

Agora ele partia, vitimado pela fraqueza dos pulmões.

Ela ficava, com suas sapatilhas, em busca de um novo par para dançar.

25 de jul de 2009

O homem perfeito

Inspirada numa conversa


Não pode ser muito alto. Mais baixo que eu, nem pensar.

Um pouco mais alto só, para eu me aconchegar no seu peito.

Mãos grandes. Gosto de homem com mãos grandes. A pegada é melhor.

Tem que ter pegada, ou não rola.

Tanto faz loiro ou moreno. Careca também pode.

Ah, com barba. Gosto de homem com barba.

Uma semana sem fazer a barba é o ideal. Mas o pêlo tem que ser macio. Piniquento, não dá.

Gostar de futebol é imprescindível. Pode até torcer para outro time, porque discordar, às vezes, é bom.

Mas ele tem que gostar de assistir futebol. Não de jogar. Nada de jogo de domingo com os amigos.

Precisa ser culto. Adorar cinema e livros. Disso não abro mão.

Quanto à música... qualquer estilo, exceto sertanejo.

Preferencialmente tem que gostar de MPB e Blues. Rock só se não for de gritaria.

Não curto aqueles rocks pesados, em que o cara só grita e a gente não entende o que ele canta.

Tem que ser romântico na medida certa. Não grudento, porque não suporto grude. Mas tem que demonstrar seu amor por mim.

De flores, não gosto.

Se for vaso, vou ter que ficar molhando e tals e, se for buquê, em dois dias as flores murcham e vou ficar pensando que o amor também vai morrer. Sei lá, flores não.

Prefiro que ele me faça um vídeo. Pode ser um vídeo simples. Com fotos minhas, fotos nossas.

Também pode ser uma música. Seria legal se ele fizesse uma música pra mim.

Um vídeo com a música que ele fez para mim, na trilha sonora de fundo então, seria perfeito.

Outra coisa importante: ele não pode ser vidrado só em virilha com depilação completa. Homem não imagina o quanto dói para depilar a virilha.

Ele precisa ser meu amigo, meu confidente. Terminar minhas frases e adivinhar o que estou pensando.

Mas também precisa ser meu amante. Adivinhar o que quero e fazer exatamente aquilo que desejo e quando desejo.

Quase esqueci! Ele tem que respeitar meu espaço.

Reservaremos um dia na semana para fazermos programas separados.

O ideal seria eu ir pro bar com as amigas e ele preferir alugar um filminho para assistir em casa, tomando cerveja.

Café. Ele deve gostar de café, para desbravar várias cafeterias comigo.

Tem que gostar de viajar também. Muito.

Cozinhar, eu cozinho, mas ele é quem deve lavar a louça.

Não precisa ser rico, mas ter um pouco de ambição não faz mal a ninguém.

Cheio de frescuras, também não.

Esse papo de que mulher tem que ser uma dama até no banheiro, é ridículo.

Ficar peidando e arrotando o tempo todo é nojento, ele não pode ser desse tipo. Mas também não pode ficar escandalizado quando isso acontecer. Tanto com ele, quanto comigo.

Se ele souber poesia de cor, será ótimo.

Se escrever poesia para mim, será divino.

Ele tem que achar encantador eu não gostar de maquiagem e entender minha falta de preocupação no vestir, pois percebe que valorizo outras coisas acima da aparência.

Ambientalista, mas não desses chatos. Animal em casa, só se for peixe de aquário.

Cheiroso! Isso tem que ser, Definitivamente!

Pode ser gordinho... aliás, gosto de homem gordinho. Mas não muito barrigudo.

Magrelo, não. De magrela, já basto eu.

Fofinho. Inteligente. Carinhoso.

Não sou tão exigente quanto a homem e, mesmo assim, continuo solteira... não dá pra entender.

24 de jul de 2009

O Portador

Inspirada numa alergia
Créditos em homenagem ao meu querido Elígio.


- Estou mal. Não aguento mais tossir.

- Mas você está com febre?

- Não. Só tosse seca.

- Menos mal, porque se estivesse com febre, poderia ser gripe suína.

- Não é não. Nem tenho sintomas de gripe, é a maldita alergia mesmo. A não ser que o vírus mutou e eu sou o primeiro portador da doença que dizimará a humanidade. Nossa, dá até filme hein. Já Pensou? "O portador". Filmão. Depp faria meu personagem, porque temos o mesmo tipo físico e você sempre diz que meu nariz é igualzinho o dele. O roteiro está vindo na minha cabeça agora. Vai anotando o que vou te falando, que você escreve mais rápido. Vou regular o som do Skype para ir ditando para você. Ficou bom. Vamos lá. Está pronta? Estou vendo todas as cenas, movimentação de câmeras, o cheiro do set durante as filmagens. Farei algo de trás pra frente. Já começa com a terra devastada e uma voz ou um escrito, estilo Star Wars, vai contando o que aconteceu. Surge Depp na tela. Lindo. Saudável. Aventureiro. Talvez em trajes de Indiana Jones. Talvez. Sublinha isso. Talvez. Ele espirra. E começa a andar. Rua movimentada. Cheia de gente. Acho que ele não estará vestido de Indiana não. Enfim. Ele tosse. Gotículas saem de sua boca. A câmera registra bem isso. Câmera lenta ficará perfeito. Ele está contaminado. E todos que estão ali também estão sendo contaminados. É assim que começam as epidemias, não é mesmo? Mas onde ele pegou esse vírus? Pensa. Me dá uma sugestão? Que tal num show do Iggy Pop? Seria o máximo. O filme terá trilha sonora do Iggy. Está decidido. Espera que a campainha está tocando.

...

- O que você está fazendo aqui, amada? Estou falando com você pelo skype. É uma imagem holográfica? Como tocou a campainha?

- Bee, você está delirando, venha cá. Meu Deus, está queimando em febre. Vista as calças, vou te levar pro hospital.

18 de jul de 2009

Um agrado

Inspirada num dia frio


Ele não ligou como prometera.

Ela tinha passado o dia com o celular na mão, checando-o de minuto em minuto, mesmo sem ter tocado.

A noite, em claro, fora um martírio.

Pela manhã estava com olheiras e mau humor.

Depois do costumeiro café, sem açucar, saiu às compras.

Como no dia anterior, foi para a loja de lingerie, mas dessa vez, não escolheu conjuntos sexies, nem calcinhas provocantes. Comprou um pijama longo. De flanela.

Dirigiu-se ao supermercado e, no lugar de comprar ingredientes para um jantar romântico e velas, comprou lasanha congelada, chocolate, pipoca de microondas e lenço de papel.

No mercado municipal presenteou-se com luvas, um gorro e longas meias coloridas, com dedinhos.

Antes de voltar para casa, parou na locadora e escolheu meia dúzia de filmes antigos, em preto e branco, daqueles que tornam o choro inevitável.

Já em casa, descarregou as compras, ligou um Blues e entrou no banho.

Enquanto a água fervente escorria por seu corpo, ouvia Stevie Ray Vaughan e sentia raiva de si mesma. Dois dias antes havia se depilado inteira. Teve náuseas de dor a cada puxada de cera, a virilha ficara avermelhada, mas tudo era válido para agradá-lo.

Desgraçado, sofrera em vão.

Ao som da gaita de Cephas & Wiggins, secou os cabelos, vestiu o pijama novo, o gorro, as luvas e calçou as meias com dedinhos.

Gargalhou ao se ver no espelho. Aquela era ela. Nada convencional. Estava com saudades de si mesma e se jogou um beijo estalado.

Levou para a cama seu "kit-dia-frio-deprê": comida pronta, chocolate, pipoca, lenço de papel e uma garrafa de vinho (intacta desde a noite anterior).

Colocou o primeiro filme e aconchegou-se.

Pronto.

Agora sim, poderia chorar todas as suas mágoas.

6 de jul de 2009

Perdas e ganhos

Inspirada numa seta no alvo


Sempre escutou o velho ditado "Azar no amor, sorte no jogo", mas nunca achou que fosse verídico.


Pessoas sortudas tinham sorte em tudo. Sempre.


Ela era azarada em tudo. Sempre.


Sua vida era caótica. Especialmente a amorosa. Cheia de altos e baixos.


Primeiro perdeu o amigo de cama-mesa-banho para uma mais peituda e resolveu, do nada, apostar pela primeira vez na Mega Sena. E acertou a quadra.


Um mês depois rompeu, em definitivo, os laços com um antigo caso. Acertou a quina na Mega Sena.


No entanto, só teve certeza que o azar amoroso lhe trazia recompensas financeiras, quando o amor da sua vida morreu repentinamente, e ela ganhou na Mega Sena.


Na última vez em que se teve notícias dela, estava, feliz da vida, morando numa ilha particular, com um boneco inflável.

30 de jun de 2009

Unidos pelo Futebol

Inspirada num desencontro
(Primeira história com intervenção do meu ombudsman. Obrigada, Mandioca.)


Tinham a mesma idade, o mesmo histórico de desastres pessoais e a mesma paixão pelo futebol.

Idosos, não quiseram dar trabalho aos filhos e mudaram-se, quase na mesma época, para um asilo particular.

Ele achava um despautério uma mulher, na idade dela, discutindo futebol com os homens.

Ela achava ridículo aquele velho, todos os dias, tomar café da manhã com pijama flanelado do Corinthians.

- A senhora deveria estar tricotando em vez de debater futebol.

- Se o senhor tivesse visto seu time ser campeão da Libertadores ao menos uma vez, não seria tão amargo.

Apesar das rusgas futebolísticas, acabaram ficando bons amigos.

Quando anoitecia, gostavam de jogar baralho, tomar chá, relembrar os tempos da juventude e discutir futebol.

- Você lembra quando o Ronaldo Fenômeno jogava no Corinthians? Tempos de glória aqueles.

- É, o Ronaldo era fenomenal. Saia com homem achando que era mulher e jogava no Corinthians achando que era time.

- Eu escutava muito essa piadinha infame na época. Tinha uma amiga, são paulina meio fanática como você, que não perdia a oportunidade de me relembrar sobre esse deslize do meu ídolo.

- Fofucho era seu ídolo?

- Você disse Fofucho?

O reconhecimento os atingiu em cheio. Haviam sido grandes amigos virtuais na juventude.

Conversavam pelo msn diariamente. Trocavam confidências.

Riam das desgraças e exaltavam as vitórias dos seus times.

Brigavam ocasionalmente e, nessas situações, não se falavam por dias.

Eram temperamentais.

Tinham personalidade forte.

Mas não conseguiam ficar muito tempo longe e sempre reatavam.

Seus gostos musicais, literários e cinematográficos eram parecidos. Adoravam futebol, mas torciam para times diferentes.

Seus horizontes culturais se ampliavam a cada bate papo.

Bem humorados, desavergonhados, politizados, jamais conseguiram se encontrar. Tentaram algumas vezes, mas em vão.

Moravam na mesma cidade e frequentavam os mesmos lugares, porém, em horários e dias diferentes.

Estavam fadados ao desencontro.

Seguiram caminhos diferentes e nunca mais tinham tido notícias um do outro.


Finalmente o futebol os unira.

Estavam no mesmo lugar e na mesma hora.

29 de jun de 2009

O dia D

Inspirada numa decisão


Sem emoção alguma, olhou-se nua no espelho.

Altura mediana, corpo esquelético, o rosto ainda era bonito, mas não tanto quanto fora outrora.

Os lábios carnudos estavam sem cor e os olhos amendoados, brilhantes em outros tempos, estavam fundos pela noite mal dormida.

Passou os longos dedos com unhas vermelhas pelos cabelos e lembrou-se que, ao cortá-los curto, pretendia ter uma aparência moderna, despojada, mas agora via que sua aparência era de desventura e desesperança.

Os seios diminutos, que a assombravam desde a adolescência, insistiam em afrontá-la na sua nudez.

Havia perdido a juventude na espera do amadurecimento do seu amor.

Sentiu-se ridícula.

Envergonhada, desviou a visão para a área do quadril, onde suas cicatrizes tornavam a lembrá-la que já ganhara e perdera muito na vida e era preciso seguir em frente, apesar de tudo.

Jamais poderia roubar o brilho da noiva.

Seria apenas a madrinha.

Madrinha no casamento do amor da sua vida.

Não iria.

Sem maiores explicações, estava decidido. Não iria.

Teve consciência que essa atitude poderia atrasar um pouco o casamento, mas jamais cancelar.

Madrinha, coloca-se outra no lugar. Noiva não.

Num último relance dramático, imaginou-o em desespero porque ela não aparecia. Atormentado por aquela ausência, ele percebia que apenas ao seu lado poderia ser feliz, mas, a noiva chegou e ele já não podia mais pensar naquela a quem um dia jurara amor eterno.

Sem que percebesse, grossas lágrimas brotaram de seus olhos e um soluço doído ecoou de sua garganta.

Num rompante, lavou o rosto na água fria da pia, pintou os lábios e decidiu ir...
... para a praia.

Duelo

Inspirada num absurdo


- Ele está te traindo.

A boca se abriu. Os olhos se fecharam.

- Você contou para mais alguém?

Sua voz era trêmula, quase um sussurro.

- Claro que não. Assim que o vi com a outra, vim te contar.

Um brilho estranho surgiu em seu olhar.

- Como ela é?

A ansiedade dilatou suas narinas.

- Parece uma vadia. Roupa justa, muita maquiagem.

Assegurou a outra.

- Prometa-me, por seus filhos, que não contará a mais ninguém.

Implorou aflita.

- Prometo. Mas o que você fará?

Ela apenas sorriu.
Não podia viver sem ele.

Estava decidida a renovar seu guarda-roupa, com roupas mais sensuais.

Não seria fácil competir com uma vadia, mas, enquanto ninguém mais soubesse, não precisaria deixá-lo.

Lutaria por seu homem.

Negócios a parte

Inspirada num desenho


Conversaram a noite inteira. Sobre tudo.

Filosofia. Cinema. Música. Religião. Geografia. Antropologia. Comida. Bebida. Passado. Presente. Futuro. História. Sonhos. Desejos, Fantasias. Relacionamentos. Amores. Desamores.

Beberam a noite inteira. De tudo.

Foram para a cama. Juntos.

Um momento de constrangimento.

Para resgatar a intimidade adquirida ele teve um impulso.

Ficou em pé na cama, abriu os braços e invocou:

"Antigos espíritos do mal"

Rapidamente desabotoou a camisa.

"Transformem essa decadente em Mumm Ra, o de vida eterna."

Quando voltou a fitá-la, ela chorava de tanto rir.

Sentou-se e riram juntos.

Abraçaram-se e choraram todos os amores perdidos.

Entrelaçaram as mãos com a certeza de que seriam amigos para sempre.

Tiro pela culatra

Inspirada numa impressão


Resolveu dar um basta na situação.

Cansou de ser usada.

Há tempos sabia que ele só se aproximava dela quando precisava de algo.

Tudo o que ele lhe pedia, ela atendia de pronto.

Dessa vez entoou um sonoro não.

Ele ficou surpreso.

Ela despejou sobre ele todas as mágoas acumuladas.

Acusou-o de interesseiro e cafajeste.

Ele esboçou uma réplica.

O olhar gélido dela o fez calar-se.

Não acreditaria mais nas suas saudades e na sua bajulação.

Cruzou os braços e serrou o maxilar.

Olhou para ele com falsa indiferença.

Sua mente divagava.

A qualquer momento ele iria se ajoelhar e pedir perdão.

Ele tinha o olhar perdido. Olhava para o nada.

Ela estava certa que o remorso o corroía.

Ele, no entanto, vasculhava na mente o nome de outras.

Lembrou-se de duas.

Disse apenas:

- Sinto muito, não era para acabar assim.

E foi embora.

Sabia que aquela era uma possibilidade. O fim definitivo. Mas ficou mais leve por deixar de carregá-lo nos ombros.

Mas sentiria falta do peso dele no seu coração.

Desenlace

Inspirada num vislumbre


Acordou com o ronco dele.

O cheiro de suor e peido lhe atingiu as narinas.

Jogou as cobertas e saltou da cama.

Olhou para a massa de gordura e pêlos enrolada nos lençóis.

Suspirou.

Foi pro banheiro.

Ele não havia dado a descarga.

Sentiu náuseas.

Entrou no banho.

Ensaboou-se e esfregou-se repetidamente para tirar os fluidos dele do seu corpo.

Deixou a água escorrer pelos cabelos.

Fechou a torneira.

Enrolou-se na toalha.

No reflexo do espelho viu a marca arroxeada na face.

Engoliu as lágrimas.

Sorriu tristemente e foi fazer o café.

Só mais três dias.

Segundo o advogado, ela teria que aturá-lo só mais três dias, para que pudesse ter direito à pensão.

26 de jun de 2009

Felicidade Clandestina

Inspirada numa possibilidade

Haviam namorado na adolescência. Namoro conturbado, moldado pelo cíúmes e medo de traição que sentiam, mas gostavam-se. Isso era óbvio.

Quando o namoro acabou, sofreram, mas o orgulho não os deixou reatar.

Alguns anos se passaram e, mais maduros, os ex-namorados retomaram a amizade.

Se encontravam para relembrar histórias, rirem das brigas e comentar sobre os amigos.

Foram se vendo cada vez mais e a vontade de se verem crescia e crescia.

Engataram um novo romance. Clandestino.

Ambos estavam envolvidos em outros romances, mas sentiam necessidade de se verem, de se tocarem. Adoravam aquela retomada da aventura da adolescência.

Mas, a consiência passou a assombrá-los e, sem coragem de enfrentar o mundo em prol daquela felicidade, romperam.

Muitos anos se passaram e, já maduros, mais uma vez os ex-namorados se reencontraram e retomaram a velha amizade.

Se encontravam para relembrar as velhas histórias, riam das velhas brigas e comentavam sobre os velhos amigos. E foram se vendo cada vez mais até que retomaram o velho romance. Clandestino.

Embora ambos estivessem envolvidos em outros relacionamentos, ansiavam por se ver, tocar e conversar. Sentiam-se jovens quando estavam juntos. Conversavam todos os dias.

Não precisavam representar papéis de conduta um com o outro, pois conheciam-se ao avesso.
A felicidade clandestina que experimentavam na maturidade lhes deu coragem de assumir que se amavam e não podiam mais viver separados.

Enfrentaram o mundo. Juntos.

Por 45 dias foram as criaturas mais felizes do planeta, até que ela morreu de aneurisma e, dois dias depois, ele de enfarto.

A Executiva

Inspirada numa dicotomia

De todas as amigas, a executiva foi a que alcançou o maior sucesso profissional e financeiro.

Estudiosa, competitiva, obstinada, responsável, galgou por mérito sua posição de destaque em uma renomada empresa.

Profissionalmente, viajou pelos 4 continentes.

Profissionalmente, conheceu ministros.

Profissionalmente, rebelou-se.

A Executiva também é bem sucedida no seu lado pessoal.

Pessoalmente, viajou pelo país inteiro.

Pessoalmente, foi campeã de judô.

Pessoalmente, subiu ao altar.

A Executiva e a Escritora são amigas desde o ensino fundamental e, de tão diferentes no pensar, ser e agir, são amigas-irmãs, que completam-se, principalmente, porque discordam de quase tudo, mas respeitam - embora não concordem - a lógica do ser, pensar e agir de cada uma.

Quando a Executiva se casou, embora fosse setembro, estava muito frio. Seu vestido tomara-que-caia era lindo, mas não a aquecia. No carro, antes de entrar na Igreja, sobre o vestido ela, como boa esportista que era, trajava um agasalho na Nike!

Geralmente, as amigas se encontravam toda quarta-feira em um bar da cidade, o qual chamavam de quartel-general e era comum receberem um torpedo da Executiva com os dizeres:

- Meu avião chega às 19h em Viracopos e vou direto pro bar. Me esperem. Estou com saudades.

E assim era.

Mas a Executiva rebelou-se. Decidiu que nem mesmo seu alto salário era suficiente para que compactuasse com determinadas coisas e, sem pensar duas vezes, desligou-se da empresa.

Como era competente, em pouco tempo, já trabalhava em outro local, no qual descobriu que consciência tranquila é o melhor dos pagamentos.

Essas histórias exemplificam a dicotomia que faz da Executiva o ser completo que é.

13 de jun de 2009

A Escritora

Inspirada numa contradição

Ao contrário do que se possa imaginar, a escritora não é calma, silenciosa, tímida, introspectiva, observadora e reservada.

De todas as amigas é a mais desbocada, gritona, desinibida, extravagante e excêntrica.

Sempre teve grandes ideais sociais, paixão por livros, cultura, política, cinema e música, além de um inexplicável ímã para os homens errados.

Aliás, suas histórias de amores mal-resolvidos são as melhores, as mais engraçadas, inacreditáveis e sempre rendem gargalhadas no fim das reuniões.

Sempre sorrindo, não tem papas na língua e, para desespero das amigas, tem uma opinão desbocada, na ponta da língua, sobre tudo que considere excessivo.

Certa vez, as amigas estavam em um bar, ligeiramente alcoolizadas, mas comportadamente sentadas ao redor de uma mesa na calçada, conversando e rindo, até que um rapaz estacionou o carro bem próximo da mesa delas, desceu, abriu o porta-malas e ligou o som.

No último.

Música sertaneja.

Todas fizeram careta, inclusive a vendedora que é a única, reconhecidamente, fã desse tipo de música, mas a escritora não se limitou à careta.

Elevando seu tom de voz acima da música, declarou:

- A super potência do som do seu carro deve ser para compensar a falta de potência do seu pinto.


Todos no bar riram e o rapaz, mais do que depressa, desligou o som do carro, bateu a porta do porta malas e dirigiu-se ferozmente em direção à mesa das amigas e a escritora, brava, valente e inconsequente, colocou-se em pé, derrubando a cadeira em que estava sentada e estufando o peito, apesar de seus pequenos seios, para confrontá-lo.

As amigas, de pronto, apressaram-se em arrastá-la pelos braços e tirá-la dali, pois sabiam que ela iria ridicularizá-lo ainda mais e, se ele partisse para agressão física (o que era bem possível), ela armaria um escândalo e sobraria socos e pontapés até para elas.

Assim é a escritora: instável e imprudente.

Mas, talvez pelo fato de ser a mais velha (44 dias mais velha) ou por ser a única delas que conhece a profunda dor da maior das perdas, ela é a fortaleza do grupo. O elo que as conserva juntas. A que não convida, convoca. A que, de uma forma ou de outra está sempre em contato com todas e as mantém em contato.

Ela deveria ser a última descrita, mas, como é a mais caricata de todas, talvez a descrição das demais beire a normalidade agora.

5 de jun de 2009

Jovens Mulheres Maduras

Inspirada numa comunidade

Era uma vez, 7 amigas - a Executiva, a Farmacêutica, a Jornalista, a Maternal, a Financista, a Vendedora e a Escritora -, que se conheciam há muito tempo – desde a época em que debutaram e iam de calça bailarina para a escola, para o shopping e para a balada, colavam papel de bala na agenda e achavam o máximo da rebeldia dividir em 7 uma dose de menta e uma latinha de cerveja – e que, mesmo depois de passarem a barreira dos 30 anos, continuavam amigas na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nem sempre se respeitando, às vezes criticando, outras amparando, mas sempre se amando incondicionalmente.

Numa tarde chuvosa, daquelas em que tudo dá errado, a Escritora, tentando espantar o baixo astral, navegava na Internet, procurando nas comunidades do Orkut algum texto interessante para parafrasear e deparou-se com o título “Jovens Mulheres Maduras”. Foi o suficiente para que tivesse uma epifania e começasse a escrever sobre as meninas.

E a Escritora riu ao relembrar as histórias de brigas, brincadeiras, choros, risos, romances, fofocas, nascimentos e mortes, desse inusitado grupo, de estilos, estado civil, gosto musical e áreas de interesse diferentes, unido, apenas, pela inabalável amizade e, então, constatou que o único ponto em comum entre todas é o fato de que falam demais.

Quando se reúnem, a cacofonia é certa. Todas falam alto, gargalham, se interrompem, falam por cima, falam juntas, falam coisas repetidas, falam e falam e falam.

São tantas as histórias e é tanto o carinho por elas, que serão necessários vários posts, contando as histórias (não todas, porque algumas são proibidas para menores de 18 anos) de cada uma dessas mulheres, jovens mulheres, maduras mulheres, amigas mulheres, felizes mulheres.