30 de jun de 2009

Unidos pelo Futebol

Inspirada num desencontro
(Primeira história com intervenção do meu ombudsman. Obrigada, Mandioca.)


Tinham a mesma idade, o mesmo histórico de desastres pessoais e a mesma paixão pelo futebol.

Idosos, não quiseram dar trabalho aos filhos e mudaram-se, quase na mesma época, para um asilo particular.

Ele achava um despautério uma mulher, na idade dela, discutindo futebol com os homens.

Ela achava ridículo aquele velho, todos os dias, tomar café da manhã com pijama flanelado do Corinthians.

- A senhora deveria estar tricotando em vez de debater futebol.

- Se o senhor tivesse visto seu time ser campeão da Libertadores ao menos uma vez, não seria tão amargo.

Apesar das rusgas futebolísticas, acabaram ficando bons amigos.

Quando anoitecia, gostavam de jogar baralho, tomar chá, relembrar os tempos da juventude e discutir futebol.

- Você lembra quando o Ronaldo Fenômeno jogava no Corinthians? Tempos de glória aqueles.

- É, o Ronaldo era fenomenal. Saia com homem achando que era mulher e jogava no Corinthians achando que era time.

- Eu escutava muito essa piadinha infame na época. Tinha uma amiga, são paulina meio fanática como você, que não perdia a oportunidade de me relembrar sobre esse deslize do meu ídolo.

- Fofucho era seu ídolo?

- Você disse Fofucho?

O reconhecimento os atingiu em cheio. Haviam sido grandes amigos virtuais na juventude.

Conversavam pelo msn diariamente. Trocavam confidências.

Riam das desgraças e exaltavam as vitórias dos seus times.

Brigavam ocasionalmente e, nessas situações, não se falavam por dias.

Eram temperamentais.

Tinham personalidade forte.

Mas não conseguiam ficar muito tempo longe e sempre reatavam.

Seus gostos musicais, literários e cinematográficos eram parecidos. Adoravam futebol, mas torciam para times diferentes.

Seus horizontes culturais se ampliavam a cada bate papo.

Bem humorados, desavergonhados, politizados, jamais conseguiram se encontrar. Tentaram algumas vezes, mas em vão.

Moravam na mesma cidade e frequentavam os mesmos lugares, porém, em horários e dias diferentes.

Estavam fadados ao desencontro.

Seguiram caminhos diferentes e nunca mais tinham tido notícias um do outro.


Finalmente o futebol os unira.

Estavam no mesmo lugar e na mesma hora.

29 de jun de 2009

O dia D

Inspirada numa decisão


Sem emoção alguma, olhou-se nua no espelho.

Altura mediana, corpo esquelético, o rosto ainda era bonito, mas não tanto quanto fora outrora.

Os lábios carnudos estavam sem cor e os olhos amendoados, brilhantes em outros tempos, estavam fundos pela noite mal dormida.

Passou os longos dedos com unhas vermelhas pelos cabelos e lembrou-se que, ao cortá-los curto, pretendia ter uma aparência moderna, despojada, mas agora via que sua aparência era de desventura e desesperança.

Os seios diminutos, que a assombravam desde a adolescência, insistiam em afrontá-la na sua nudez.

Havia perdido a juventude na espera do amadurecimento do seu amor.

Sentiu-se ridícula.

Envergonhada, desviou a visão para a área do quadril, onde suas cicatrizes tornavam a lembrá-la que já ganhara e perdera muito na vida e era preciso seguir em frente, apesar de tudo.

Jamais poderia roubar o brilho da noiva.

Seria apenas a madrinha.

Madrinha no casamento do amor da sua vida.

Não iria.

Sem maiores explicações, estava decidido. Não iria.

Teve consciência que essa atitude poderia atrasar um pouco o casamento, mas jamais cancelar.

Madrinha, coloca-se outra no lugar. Noiva não.

Num último relance dramático, imaginou-o em desespero porque ela não aparecia. Atormentado por aquela ausência, ele percebia que apenas ao seu lado poderia ser feliz, mas, a noiva chegou e ele já não podia mais pensar naquela a quem um dia jurara amor eterno.

Sem que percebesse, grossas lágrimas brotaram de seus olhos e um soluço doído ecoou de sua garganta.

Num rompante, lavou o rosto na água fria da pia, pintou os lábios e decidiu ir...
... para a praia.

Duelo

Inspirada num absurdo


- Ele está te traindo.

A boca se abriu. Os olhos se fecharam.

- Você contou para mais alguém?

Sua voz era trêmula, quase um sussurro.

- Claro que não. Assim que o vi com a outra, vim te contar.

Um brilho estranho surgiu em seu olhar.

- Como ela é?

A ansiedade dilatou suas narinas.

- Parece uma vadia. Roupa justa, muita maquiagem.

Assegurou a outra.

- Prometa-me, por seus filhos, que não contará a mais ninguém.

Implorou aflita.

- Prometo. Mas o que você fará?

Ela apenas sorriu.
Não podia viver sem ele.

Estava decidida a renovar seu guarda-roupa, com roupas mais sensuais.

Não seria fácil competir com uma vadia, mas, enquanto ninguém mais soubesse, não precisaria deixá-lo.

Lutaria por seu homem.

Negócios a parte

Inspirada num desenho


Conversaram a noite inteira. Sobre tudo.

Filosofia. Cinema. Música. Religião. Geografia. Antropologia. Comida. Bebida. Passado. Presente. Futuro. História. Sonhos. Desejos, Fantasias. Relacionamentos. Amores. Desamores.

Beberam a noite inteira. De tudo.

Foram para a cama. Juntos.

Um momento de constrangimento.

Para resgatar a intimidade adquirida ele teve um impulso.

Ficou em pé na cama, abriu os braços e invocou:

"Antigos espíritos do mal"

Rapidamente desabotoou a camisa.

"Transformem essa decadente em Mumm Ra, o de vida eterna."

Quando voltou a fitá-la, ela chorava de tanto rir.

Sentou-se e riram juntos.

Abraçaram-se e choraram todos os amores perdidos.

Entrelaçaram as mãos com a certeza de que seriam amigos para sempre.

Tiro pela culatra

Inspirada numa impressão


Resolveu dar um basta na situação.

Cansou de ser usada.

Há tempos sabia que ele só se aproximava dela quando precisava de algo.

Tudo o que ele lhe pedia, ela atendia de pronto.

Dessa vez entoou um sonoro não.

Ele ficou surpreso.

Ela despejou sobre ele todas as mágoas acumuladas.

Acusou-o de interesseiro e cafajeste.

Ele esboçou uma réplica.

O olhar gélido dela o fez calar-se.

Não acreditaria mais nas suas saudades e na sua bajulação.

Cruzou os braços e serrou o maxilar.

Olhou para ele com falsa indiferença.

Sua mente divagava.

A qualquer momento ele iria se ajoelhar e pedir perdão.

Ele tinha o olhar perdido. Olhava para o nada.

Ela estava certa que o remorso o corroía.

Ele, no entanto, vasculhava na mente o nome de outras.

Lembrou-se de duas.

Disse apenas:

- Sinto muito, não era para acabar assim.

E foi embora.

Sabia que aquela era uma possibilidade. O fim definitivo. Mas ficou mais leve por deixar de carregá-lo nos ombros.

Mas sentiria falta do peso dele no seu coração.

Desenlace

Inspirada num vislumbre


Acordou com o ronco dele.

O cheiro de suor e peido lhe atingiu as narinas.

Jogou as cobertas e saltou da cama.

Olhou para a massa de gordura e pêlos enrolada nos lençóis.

Suspirou.

Foi pro banheiro.

Ele não havia dado a descarga.

Sentiu náuseas.

Entrou no banho.

Ensaboou-se e esfregou-se repetidamente para tirar os fluidos dele do seu corpo.

Deixou a água escorrer pelos cabelos.

Fechou a torneira.

Enrolou-se na toalha.

No reflexo do espelho viu a marca arroxeada na face.

Engoliu as lágrimas.

Sorriu tristemente e foi fazer o café.

Só mais três dias.

Segundo o advogado, ela teria que aturá-lo só mais três dias, para que pudesse ter direito à pensão.

26 de jun de 2009

Felicidade Clandestina

Inspirada numa possibilidade

Haviam namorado na adolescência. Namoro conturbado, moldado pelo cíúmes e medo de traição que sentiam, mas gostavam-se. Isso era óbvio.

Quando o namoro acabou, sofreram, mas o orgulho não os deixou reatar.

Alguns anos se passaram e, mais maduros, os ex-namorados retomaram a amizade.

Se encontravam para relembrar histórias, rirem das brigas e comentar sobre os amigos.

Foram se vendo cada vez mais e a vontade de se verem crescia e crescia.

Engataram um novo romance. Clandestino.

Ambos estavam envolvidos em outros romances, mas sentiam necessidade de se verem, de se tocarem. Adoravam aquela retomada da aventura da adolescência.

Mas, a consiência passou a assombrá-los e, sem coragem de enfrentar o mundo em prol daquela felicidade, romperam.

Muitos anos se passaram e, já maduros, mais uma vez os ex-namorados se reencontraram e retomaram a velha amizade.

Se encontravam para relembrar as velhas histórias, riam das velhas brigas e comentavam sobre os velhos amigos. E foram se vendo cada vez mais até que retomaram o velho romance. Clandestino.

Embora ambos estivessem envolvidos em outros relacionamentos, ansiavam por se ver, tocar e conversar. Sentiam-se jovens quando estavam juntos. Conversavam todos os dias.

Não precisavam representar papéis de conduta um com o outro, pois conheciam-se ao avesso.
A felicidade clandestina que experimentavam na maturidade lhes deu coragem de assumir que se amavam e não podiam mais viver separados.

Enfrentaram o mundo. Juntos.

Por 45 dias foram as criaturas mais felizes do planeta, até que ela morreu de aneurisma e, dois dias depois, ele de enfarto.

A Executiva

Inspirada numa dicotomia

De todas as amigas, a executiva foi a que alcançou o maior sucesso profissional e financeiro.

Estudiosa, competitiva, obstinada, responsável, galgou por mérito sua posição de destaque em uma renomada empresa.

Profissionalmente, viajou pelos 4 continentes.

Profissionalmente, conheceu ministros.

Profissionalmente, rebelou-se.

A Executiva também é bem sucedida no seu lado pessoal.

Pessoalmente, viajou pelo país inteiro.

Pessoalmente, foi campeã de judô.

Pessoalmente, subiu ao altar.

A Executiva e a Escritora são amigas desde o ensino fundamental e, de tão diferentes no pensar, ser e agir, são amigas-irmãs, que completam-se, principalmente, porque discordam de quase tudo, mas respeitam - embora não concordem - a lógica do ser, pensar e agir de cada uma.

Quando a Executiva se casou, embora fosse setembro, estava muito frio. Seu vestido tomara-que-caia era lindo, mas não a aquecia. No carro, antes de entrar na Igreja, sobre o vestido ela, como boa esportista que era, trajava um agasalho na Nike!

Geralmente, as amigas se encontravam toda quarta-feira em um bar da cidade, o qual chamavam de quartel-general e era comum receberem um torpedo da Executiva com os dizeres:

- Meu avião chega às 19h em Viracopos e vou direto pro bar. Me esperem. Estou com saudades.

E assim era.

Mas a Executiva rebelou-se. Decidiu que nem mesmo seu alto salário era suficiente para que compactuasse com determinadas coisas e, sem pensar duas vezes, desligou-se da empresa.

Como era competente, em pouco tempo, já trabalhava em outro local, no qual descobriu que consciência tranquila é o melhor dos pagamentos.

Essas histórias exemplificam a dicotomia que faz da Executiva o ser completo que é.

13 de jun de 2009

A Escritora

Inspirada numa contradição

Ao contrário do que se possa imaginar, a escritora não é calma, silenciosa, tímida, introspectiva, observadora e reservada.

De todas as amigas é a mais desbocada, gritona, desinibida, extravagante e excêntrica.

Sempre teve grandes ideais sociais, paixão por livros, cultura, política, cinema e música, além de um inexplicável ímã para os homens errados.

Aliás, suas histórias de amores mal-resolvidos são as melhores, as mais engraçadas, inacreditáveis e sempre rendem gargalhadas no fim das reuniões.

Sempre sorrindo, não tem papas na língua e, para desespero das amigas, tem uma opinão desbocada, na ponta da língua, sobre tudo que considere excessivo.

Certa vez, as amigas estavam em um bar, ligeiramente alcoolizadas, mas comportadamente sentadas ao redor de uma mesa na calçada, conversando e rindo, até que um rapaz estacionou o carro bem próximo da mesa delas, desceu, abriu o porta-malas e ligou o som.

No último.

Música sertaneja.

Todas fizeram careta, inclusive a vendedora que é a única, reconhecidamente, fã desse tipo de música, mas a escritora não se limitou à careta.

Elevando seu tom de voz acima da música, declarou:

- A super potência do som do seu carro deve ser para compensar a falta de potência do seu pinto.


Todos no bar riram e o rapaz, mais do que depressa, desligou o som do carro, bateu a porta do porta malas e dirigiu-se ferozmente em direção à mesa das amigas e a escritora, brava, valente e inconsequente, colocou-se em pé, derrubando a cadeira em que estava sentada e estufando o peito, apesar de seus pequenos seios, para confrontá-lo.

As amigas, de pronto, apressaram-se em arrastá-la pelos braços e tirá-la dali, pois sabiam que ela iria ridicularizá-lo ainda mais e, se ele partisse para agressão física (o que era bem possível), ela armaria um escândalo e sobraria socos e pontapés até para elas.

Assim é a escritora: instável e imprudente.

Mas, talvez pelo fato de ser a mais velha (44 dias mais velha) ou por ser a única delas que conhece a profunda dor da maior das perdas, ela é a fortaleza do grupo. O elo que as conserva juntas. A que não convida, convoca. A que, de uma forma ou de outra está sempre em contato com todas e as mantém em contato.

Ela deveria ser a última descrita, mas, como é a mais caricata de todas, talvez a descrição das demais beire a normalidade agora.

5 de jun de 2009

Jovens Mulheres Maduras

Inspirada numa comunidade

Era uma vez, 7 amigas - a Executiva, a Farmacêutica, a Jornalista, a Maternal, a Financista, a Vendedora e a Escritora -, que se conheciam há muito tempo – desde a época em que debutaram e iam de calça bailarina para a escola, para o shopping e para a balada, colavam papel de bala na agenda e achavam o máximo da rebeldia dividir em 7 uma dose de menta e uma latinha de cerveja – e que, mesmo depois de passarem a barreira dos 30 anos, continuavam amigas na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nem sempre se respeitando, às vezes criticando, outras amparando, mas sempre se amando incondicionalmente.

Numa tarde chuvosa, daquelas em que tudo dá errado, a Escritora, tentando espantar o baixo astral, navegava na Internet, procurando nas comunidades do Orkut algum texto interessante para parafrasear e deparou-se com o título “Jovens Mulheres Maduras”. Foi o suficiente para que tivesse uma epifania e começasse a escrever sobre as meninas.

E a Escritora riu ao relembrar as histórias de brigas, brincadeiras, choros, risos, romances, fofocas, nascimentos e mortes, desse inusitado grupo, de estilos, estado civil, gosto musical e áreas de interesse diferentes, unido, apenas, pela inabalável amizade e, então, constatou que o único ponto em comum entre todas é o fato de que falam demais.

Quando se reúnem, a cacofonia é certa. Todas falam alto, gargalham, se interrompem, falam por cima, falam juntas, falam coisas repetidas, falam e falam e falam.

São tantas as histórias e é tanto o carinho por elas, que serão necessários vários posts, contando as histórias (não todas, porque algumas são proibidas para menores de 18 anos) de cada uma dessas mulheres, jovens mulheres, maduras mulheres, amigas mulheres, felizes mulheres.