21 de jan de 2009

Fim de caso

Inspirada num relato

Foi numa noite enluarada que houve a conversa.
Tornaram-se melhores amigos.
No estudo.
Na confissão.
No humor.
Na virtude.
No defeito.
Na ideologia.
No conselho
Na viagem.
No carro.
Na cama.
No bar.
Foi numa noite enluarada que houve a vontade.
Tornaram-se discretos amantes.
No estudo.
Na virtude.
No defeito.
Na cama.
No bar.
Foi numa noite enluarada que houve o mal entendido.
Tornaram-se simples colegas.
No estudo.
No bar.
Foi numa noite enluarada que houve a formatura.
Tornaram-se remotas lembranças.
No bar.

Jedi

Inspirada numa brincadeira

Para ter mais tempo de bombardear a criança com informações que julgava imprescindíveis, a mãe, nada convencional, comprava comida pronta e preparava quase todas as refeições no microondas, o que escandalizava os demais que a criticavam por não estar se dedicando de forno e fogão ao filho.
Certo domingo, preocupada com a formação cultural da criança, a mãe coloca o filho para assistir, de uma só vez, os seis episódios da saga de Star Wars.
Enquanto a criança passava o dia inteiro em frente ao televisor, a mãe ouvia censuras às suas idéias excêntricas sobre cultura, cinema, livros, músicas, guerras, políticas e histórias, com as quais doutrinava o filho.
Terminada a sessão, a mãe e a criança trocaram impressões quanto à história assistida, os aspectos técnicos do filme e sobre idéias políticas, filosóficas e musicais. Foram dormir.
A mãe sentia-se feliz com a certeza de que havia contribuído muito para o aperfeiçoamento moral e intelectual do filho, mas, ao colocar a cabeça no travesseiro, uma dúvida a assolou: “estaria queimando etapas da infância da criança?”.
Na madrugada ouviu um barulho.
De pronto levantou-se e correu ao quarto do filho.
Em pé, sobre a cama, uma criatura calçando botinas pretas e trajando calça social preta, blusa preta e capacete preto, olhou-a e explicou:
- Luke, eu sou seu pai.
Riu aliviada.
O filho continuava sendo criança.

7 de jan de 2009

Beijo mordido

Inspirada numa distância

Um amigo em comum os apresentou. No bar.
Eram filósofos de boteco.
Alguém levantou um tema polêmico na mesa e, em breve acontecia o primeiro debate filosófico entre eles.
Por mais divergentes que fossem suas opiniões, reconheceram que ali estava um adversário à altura. Surgiu o respeito mútuo.
Ele, o mais novo da mesa, era um velho conhecedor das coisas do mundo. Pensava como pensaria uma mulher, se fosse homem.
Ela, única mulher da mesa com voz ativa, era literata e feminista. Pensava como pensaria um homem, se fosse mulher.
Empatia.
Pouco tempo depois já não precisavam de intermediários, nem de platéia, para sentirem-se confortáveis durante seus debates.
Debatiam sobre seus escritos, lugares, amor, religião, sexo, drogas e rock’n roll. Debatiam sobre praticamente tudo, exceto futebol.
Ele era avesso à bola.
Ela era fanática.
Ele achava engraçado como ela ficava rememorando as conversas e criando novas teorias e argumentos.
Ela achava engraçado como ele tinha memória curta, de galinha velha, satisfazendo-se com uma só versão para as coisas.
Às vezes ele sumia.
Outras, ela sumia.
Tinham suas vidas paralelas.
Ele era poeta.
Ela era contista.
Apesar de suas diferenças, havia amizade entre eles. E havia o beijo com uma mordida no meio.
Gostavam dos beijos mordidos tanto quanto gostavam dos debates.
Gostavam de suas diferenças.
Gostavam de poder continuar com suas vidas paralelas.
Ele foi embora para divulgar suas poesias pelo mundo real.
Ela ficou para divulgar seus contos no mundo virtual.

6 de jan de 2009

Carro vermelho

Inspirada num pedido

O carro era novo. Vermelho. A felicidade estava estampada no rosto dele. Lembrou-se da amiga infeliz. Queria dividir sua felicidade para vê-la voltar a sorrir.

- Bora dar rolê – ele pulava.

- Pra onde? – a amiga perguntava.

- Pra onde o carro vermelho nos levar – ele delirava.

Riram.

Pegaram uma vicinal. Música alta. Ele estava extasiado. A amiga continuava sorumbática.

- Se alegra por mim. Meu primeiro carro – ele implorava.

- É muito legal. Você fica até bonito dentro dele - a amiga se esforçava.

- Não exagera - ele contestava.

Riram.

- To sentindo que agora minha vida vai mudar. Tenho um carro. Sabe a importância disso na vida de um solteiro? – ele fantasiava.

- Imagino. Mas, se você soltar o volante de novo para acariciar o painel, essa vida de solteiro importante pode ser mais curta – a amiga profetizava.

- Foi mal - ele se desculpava.

Riram.

- Essa estrada tá linda. Nem precisa de farol. A lua ilumina tudo – ele suspirava.

- Apaga o farol. E abaixa o volume. Detesto som alto dentro de carro – a amiga manipulava.

- Você é uma velha, mas é louca – ele sentenciava.

Riram.

- Só mais um pouco. To chegando a 150 – ele pisava.

- Olha o volante – a amiga frisava.

- É verdade - ele se lembrava.

Riram.

- Que emoção. 170 – ele acelerava.

- Você é um moleque louco – a amiga exaltava.

- Louco, mas feliz - ele cantava.

Gargalharam.

- 180. Puta que o pariu – ele se excitava.

- Segura a porra do volante – a amiga alertava.

- Esqueci - ele agora segurava.

Um animal atravessou a pista enluarada.

Silêncio – o carro vermelho capotava.

5 de jan de 2009

Diálogo

Inspirada num sintoma de saudade

- Por que você tá assim comigo?
- Porque você me beliscou.
- Mas isso foi de manhã.
- Mas ainda tá doendo.
- Eu só queria tocar em você por mais tempo.
- Não precisava beliscar.
- Desculpa.
- Tá bom.
- Pra que serve a bananeira no meio de cafezal?
- Pra quebrar o vento.
- Por que?
- Porque o vento adoece o café.
- Seus olhos verdes estão tão bonitos hoje.
- Sossega.
- Grosso.
- Não sou grosso.
- É sim.
- Não sou, não senhora.
- Olha como a lua tá linda.
- Tá mesmo.
- Vamos parar pra ver?
- Aqui é perigoso.
- Você tá me evitando.
- Por que te evitaria?
- Por causa do que aconteceu.
- Impressão sua.
- Não é não.
- Você tá com a macaca hoje.
- E você com vergonha.
- Do que?
- De ter me beijado.
- Foi você que me beijou.
- Que seja. Nós nos beijamos.
- Não to com vergonha.
- Mas tá arrependido.
- Não to.
- Então olha pra mim.
- Não dá. To dirigindo.
- Mas você tem certeza?
- Do que?
- Que não tá arrependido?
- Tenho.
- Que bom, porque também não to.
- Fico contente.
- Eu gosto de você.
- Também gosto de você.
- Você é meu melhor amigo.
- Você também é minha melhor amiga.
- Mas você tem vergonha de mim.
- Você tá ficando louca. Tá muito chata hoje.
- Preciso, desesperadamente, de um chocolate.

Ele suspirou aliviado. Em poucos dias sua melhor amiga voltaria ao normal. Ela só estava de T.P.M.

O contador de histórias

Inspirada numa razão para viver

“Hoje eu fiz dois gols. Um de falta. O outro, vim driblando desde a zaga. Cortei meu marcador com um totózinho. Trouxe a bola pro pé direito. Chutei. Indefensável. Gol. No segundo tempo fiquei de goleiro. Defendi um pênalti. Foi por um tiquinho assim que não defendi o gol de empate. Minha zaga era muito fraca e se não to lá na frente, ninguém mais faz gol. A professora me elogiou hoje. Quer dizer, as professoras me elogiaram. A de educação física porque eu sou o craque do time e a da classe porque fui o primeiro a terminar a conta de matemática. Expressão numérica. Mó difícil. Você não ia conseguir fazer porque não é boa de matemática. Só de português. Aí deixa eu e meu pai no chinelo. Até agora tava sol. Mas começou a ventar e tá garoando. Não posso brincar lá fora então vim aqui te contar um coisa. Não chora. Sonhei com ele essa noite. Ele me chamou de tato e me pediu pra jogar bola. To com saudades. Quando você vai poder levantar pra brincar comigo? Mãe, você tem que ver a menina nova que entrou na escola. Ela é linda. Você não vai acreditar. Tem o mesmo nome da outra. Acho que ela gosta de mim. Me chamou pra brincar de pega-pega no recreio, depois esbarrou comigo no bebedouro. To fazendo sucesso com a mulherada. Mas me fala, quando você vai poder levantar pra brincar comigo?”.
- Não sei, depende do médico. Deita aqui um pouquinho comigo?
“Você ainda tá muito machucada, mãe.”
- Só um pouquinho.
“Tá bom. Vou deitar com cuidado. Me avisa se doer. Pronto. Que travesseiro duro. Vou buscar o meu que é mais gostoso. Não saia daí. Piada sem graça, né mãe? Já volto e te conto sobre meu novo jogo de vídeo game e o carro turbinado que desenhei. Vou pedir pra vó cortar minha unha, pra eu não comer e você ficar feliz.”

O contador de histórias era a única razão para ela continuar vivendo.

4 de jan de 2009

O dançarino

Inspirada numa saudade

- Menino, desce daí.
Ele sorriu, virou de costas, abriu os braços e dançou.
A mãe o pegou abruptamente pelos braços, sentou-o em seu colo e explicou o perigo de subir na mesa de vidro.
"O vidro pode quebrar. Você é pesado. Nenê machuca."
O dançarino sorriu e a beijou. Aninhou-se em seu colo. Brincou com seus cabelos.
...
- Menino, dessa vez você vai apanhar.
Ele sorriu, ajeitou-se melhor e dançou.
Com o coração aos pulos a mãe o pegou no alto, sentou-o em seu colo e explicou o perigo de subir na estante.
"É muito alto. Você é pequeno. Nenê machuca."
O dançarino sorriu e a beijou. Aninhou-se em seu colo. Brincou com seus cabelos.
...
- Menino, pelo amor de Deus, não se mexa.
Ele sorriu e dançou.
Em pânico, a mãe debruçou-se na borda da piscina. Com uma mão segurava a lona de cobertura e com a outra chamava o menino gentilmente. Ele continuava a dançar. Com o dedo em riste a mãe gritou "Menino, venha já pra cá". O desespero da voz da mãe o assustou e ele percebeu que, dessa vez, ela falava sério.
Entre lágrimas ele veio andando até o alcance das mãos da mãe que o puxou no momento em que a lona cedia.
A mãe o sentou no colo, o beijou e brincou com seus cabelos, pedindo desculpas por ter ficado brava com ele.
Ele a desculpou com um abraço.
...
A família saiu para buscar o jantar.
A mãe sentou com o dançarino e o contador de histórias no banco de trás.
O dançarino ficou em pé no banco. Queria dançar. Dançou.
A mãe o pegou, sentou-o no colo e explicou que era perigoso.
"O carro pode ter que parar de repente. Você é bebê. Nenê machuca."
O dançarino sorriu e a beijou.
Um cruzamento.
Um motorista bêbado.
Um acidente.
No colo da mãe, o dançarino parou de dançar.
Para sempre.

Amizade entre homem e mulher

Inspirada numa dor de um amigo


Estavam na mesma classe desde o 1º ano.
Ficaram amigos desde o início. Faziam tudo juntos.
Um completava a frase do outro. Conversavam pelo olhar. Sempre procuravam uma razão para se tocarem.
Enquanto brincavam de amarelinha no recreio, a pergunta foi feita pela primeira vez:
- Amizade entre homem e mulher, existe?
- Claro que sim. Por que, duvida?
Não duvidava. Só queria ter certeza.
Os anos foram passando. E a pergunta se repetia. E a resposta também.
Iam à matinê juntos. Estudavam juntos. Almoçavam juntos. Eram felizes.
Num dia de muito calor, estavam brincando de esguicho e a mãe de um precisou ir ao mercado. Ficaram sozinhos. A brincadeira pegou fogo. Caíram, exaustos, um sobre o outro.
Beijaram-se.
Olharam-se nos olhos.
Beijaram-se de novo.
Sentaram-se.
- Amizade entre homem e mulher, existe?
- Claro que sim, pô. Por que?
- Talvez seja hora de começarmos a fazer amizade com meninas.

Silicone

Inspirada num complexo


A torrencial chuva a havia alcançado há três quarteirões. Inútil correr. Estava encharcada.

Já podia enxergar o ponto de ônibus cheio de gente encolhida. Faltava só um quarteirão.

Um carro dobrou a esquina, reduziu a marcha e começou a acompanhá-la. Instintivamente suspendeu a bolsa e a apertou contra o peito. A camiseta era branca.

Alcançou o abrigo de ônibus.

O carro andou mais alguns metros e parou. Deu ré até o lugar onde ela estava e buzinou.

Por alguns segundos julgou que fosse algum conhecido e estreitou a vista para ver melhor. Vasculhou a mente. Não, não era.

Baixaram o vidro do passageiro e colocaram o indicador para fora em sua direção.

Todos no ponto a fitaram.

- Entre nesse carro. Gritou uma voz imperativa vinda do interior do veículo.

Um meneio de cabeça e olhos aterrorizados foram a única resposta.

- Entra na porra desse carro porque se eu for te pegar aí, já sabe o que te espera.

Imobilidade total.

Ele desceu do carro. Baixa estatura, cabeça raspada, braços fortes, dentes acavalados.

Uma tremedeira tomou conta do seu corpo. O desespero era visível. Os que estavam mais próximos deram um passo, afastando-se.

O baixote parou à sua frente e deu-lhe um safanão no braço.

A bolsa caiu.

Olharam para baixo.

Quando seus olhos se encontraram novamente o rosto dele havia desanuviado.

Ele abaixou, pegou a bolsa e devolveu-lhe.

- Desculpa, moça. É que você é a cara da mardita. A única diferença é que ela é peituda.

Ele se foi, rindo.

Ela corou e tornou a apertar a bolsa contra o peito.

Bicho

Inspirada num bicho pintado na Bandeira do Manuel


Ela e o amigo saíram do cinema. Excelente filme. Valeu cada centavo pago. Papeavam descontraidamente.

A temperatura havia caído bastante. Era quase meia noite.

Por causa do horário, tiveram que circundar toda a extensão do shopping para chegar onde estava o carro.

Na imundície da rua notaram que tinha chovido.

O amigo o viu primeiro e o apontou.

Ela ergueu os olhos.

Lá estava ele, o Bicho, catando comida entre os detritos.

Silêncio.

Primeiro a vontade de sair correndo. Depois, ela quis chegar mais perto. O amigo a deteve. Era perigoso e nojento. O amigo estava com ânsia.

O Bicho, quando encontrava alguma coisa no lixo, não examinava nem cheirava. Engolia com voracidade.

Ela ficou estancada, olhando.

O Bicho não era um cão, não era um gato, nem mesmo um rato.

Ela chorou.

O Bicho, sozinho e humilhado, meu Deus, era um homem.

Tomando-a pela mão o amigo a levou ao carro e foram embora.

Padrinho mágico

Inspirada num maníaco de olho verde


- Vou pra Curitiba amanhã, de férias. Quer que te traga alguma coisa?

Seus olhos brilharam. Ela nem pestanejou.

- Um autógrafo do vampiro de Curitiba.

Ele sabia do que ela falava. Riu.

- Vou tentar.

Ela sabia que ele tentaria, mas também sabia que seria quase impossível. O vampiro era recluso. Não dava autógrafos. Não concedia entrevistas.

Ele foi. Percorreu a cidade inteira até encontrar o vampiro. Tinha um livro nas mãos. Contou a história da amiga ao vampiro. Ele autografou o livro com uma dedicatória.

Missão cumprida. Ele voltou.

Ela o recebeu com a alegria de sempre. Ele tinha um livro nas mãos. Abriu o livro e mostrou-lhe a folha de rosto. Ela vibrou.

- Você é meu padrinho mágico. Obrigada.

Tomou o livro e olhou a capa. O maníaco do olho verde.

Começou a chorar sentido e, entre lágrimas, indagou:

- O que faremos hoje? Preciso te contar como me apaixonei por um maníaco de olho verde.

Ele a fitou. Viu que a amiga falava sério.

- Vamos tomar um saquê e você me conta essa história.

3 de jan de 2009

Coisa de criança

Inspirada numa memória remota

- Vamos logo! Daqui a pouco tenho que subir jantar. O que os dois estão cochichando aí?
Sim, ela estava disfarçando. Havia planejado toda aquela situação.
O cúmplice olhou para ela e deu uma piscadela antes de chamar:
- Vai, todo mundo, em fila de frente pra mim.
Ela colocou-se na terceira posição da direita para a esquerda. O cúmplice cegou-o, sorriu e começou:
- É esse?
O cúmplice havia começado pelo outro lado só pelo prazer de vê-la desesperar-se e apontou para a primeira pessoa da esquerda. “Droga”, agora havia cinco obstáculos antes da concretização do seu plano.
- É esse?
- Não.
- É esse?
- Não.
Era preciso paciência...
- É esse?
- Não.
- É esse?
- Não.
Ela prendeu a respiração. Seria a próxima.
- É esse?
E o cúmplice fez uma nada discreta pressão com a ponta dos dedos na têmpora do cego e repetiu a pergunta:
- É esse?
- É.
Todos sorriram.
- E o que você quer dele? Beijo, abraço, aperto de mão ou passeio no bosque?
Ela sentiu tontura porque ainda mantinha a respiração presa. Suas mãos suavam.
O cego, que até então se deixara conduzir e manipular, de bom grado, decidiu tomar as rédeas da situação.
- Passeio no bosque.
A decepção estampou-se no rosto dela. Tantos planos. Tantas esperanças. Expectativa altíssima. Frustração gritante. Com voz azeda pediu para irem logo.
O “passeio no bosque” era uma volta em torno da construção.
Ela, passos acelerados. Estava furiosa.
Quando chegaram ao lado oposto de onde estavam o cúmplice e os figurantes, ele a tomou pelo braço e a fez parar.
- Posso te beijar?
Sua voz era macia. Seu toque era macio. Seus olhos eram macios. Só ela era dura.
- Claro que não. Você pediu “passeio no bosque” e não “beijo”.
Ele sorriu, não esperava outro tipo de resposta da menina mais brava que conhecia.
- Mas vou te beijar assim mesmo.
Ele a encostou na parede e a beijou. Foi um beijo desajeitado, sôfrego, sufocante. Os dentes de chocaram por duas vezes. Um beijo de língua. Roubado. O primeiro beijo de amor dela.
Terminada a carícia, seguiram, devagar, com o passeio no bosque.
Ela, rememorando cada detalhe que, um dia, contaria aos netos, ainda sentia aquele gosto de boca em sua boca e tinha certeza que, mais tarde, cheiraria sua roupa e o cheiro dele estaria nela.
Com sua visão afetada pelo primeiro beijo, olhou para ele de canto de olho. Ele mantinha a cabeça baixa, mas assobiava. Ela então teve a certeza que ele sofria de timidez, que ele havia pedido o “passeio no bosque” para beijá-la longe dos olhos de todos. Mas ele tinha sido o primeiro e ficariam juntos para sempre.
Ele, assobiando, pensava que aquele era um grande momento. Ele havia beijado a menina mais brava do mundo. O beijo não tinha sido tão bom, mas eles tinham só treze anos, se aperfeiçoariam. O que importa é que ele a tinha beijado. O próximo passo era conversar com o cúmplice. Impulsionado pelo seu caráter volúvel, estava determinado a beijar escondido – para não manchar sua reputação de bom menino – todas as meninas do grupo até o fim do verão. Ela tinha sido só a primeira.

Adágio ao luar

Inspirada numa grande amizade

Um dos empregados da casa de campo de Beethoven tinha uma filha cega.
Desde pequenina ela ficava escondida atrás da porta ouvindo Beethoven tocar e ele, rabugento como era, ralhava com ela e a proibiu de entrar em seu estúdio.
Anos se passaram, a menina virou uma moça e acabou contraindo tifo. Como seu pai era um bom empregado, Beethoven dignou-se a ir visitar a menina. Ao entrar no quarto se surpreendeu com a jovialidade e simpatia da jovem agonizante. Conversou com ela por um longo tempo, o que era muito raro, pois ele era por diversas vezes taciturno, e ficou encantado com o conhecimento das coisas que a moça tinha, mesmo sem nunca as ter visto.
Ao final da visita, ela confidenciou que se pudesse ver, por um único momento, gostaria de ver o luar e naquela mesma noite a menina-moça veio a falecer.
Beethoven então, decidiu materializar o luar em notas musicais e compôs Adágio ao luar!

http://www.youtube.com/watch?v=UIlkKOzIQhA

A primeira mulher

Inspirada num ser azul e numa feminista

Deus, a grande mãe, criou um ser magnífico e, em sua sublime sabedoria e benevolência, decidiu dividir esse ser em dois, para que, assim como tudo no universo que foi feito em pares, este ser pudesse ter sua metade perfeita, que o completaria.

A uma dessas metades, deu o nome de Lilith e a outra metade o nome de Adão. Soprou-lhes vida e inteligência e designou a eles um local chamado Éden.
Lilith foi o primeiro dos seres a despertar conscientemente para a vida e, enquanto Adão ainda dormia, o conhecimento sobre as coisas Divinas foi-lhe passado e a cada nova descoberta ela regozijava e questionava na busca por mais conhecimento.
Quando Adão finalmente acordou, ele e Lilith contemplaram-se atentamente e reconheceram-se como iguais, mas, Adão sentiu e fez notar, que possuía uma virilidade aparente que Lilith não tinha. Ela então lhe explicou tudo o que havia aprendido sobre as diferenças complementares entre os dois e repassou os demais conhecimentos recebidos do Criador.
Adão, com o passar dos dias, notou que sua força física era maior que a de Lilith e por isso, adotou uma conduta autoritária, sentindo que seu corpo masculino era superior à delicadeza do corpo feminino, passando a tratá-la como serva e Lilith permaneceu resignada para evitar conflitos.
No entanto, algo começou a incomodá-la profundamente.

Toda vez que eles faziam amor, Adão tentava subjugar Lilith, posicionando-se sobre ela e quando ela o questionou por que ela não poderia ficar por cima, ele simplesmente argumentou que era seu o direito, pois ele era o mais forte o que deveria provê-la.
Lilith ainda tentou contra-argumentar que eles eram iguais, feitos do mesmo barro e que não apenas ela deveria suportar o peso dele. Como Adão desdenhou de sua opinião, Lilith não mais suportou aquela conduta, invocou o Criador e pediu que ele advogasse por eles.
O Criador informou que os amava igualmente e incondicionalmente e que, portanto, não julgaria a questão, pois, junto com a vida e a inteligência, havia dado-lhes o livre-arbítrio, para que fossem capazes de tomar suas próprias decisões e ter o direito às suas próprias escolhas.
Assim que o Criador os deixou, Adão afirmou que não aceitaria que Lilith ficasse sobre ele. Que aquilo não seria natural. Decepcionada, Lilith avisou que o estava deixando, que deixaria o paraíso. Adão riu-se e foi colher frutas.
Enfurecida, Lilith saiu andando a esmo, até as fronteiras do Éden e novamente invocou Deus. Expôs sua revolta com Adão e disse que queria outro lugar para viver, que ali não poderia mais ser feliz. Deus pensou por um segundo a disse-lhe que o único lugar onde ela talvez pudesse encontrar a felicidade que estava procurando, seria no planeta Terra.
Ele a deixaria ir então para um local denominado Nod, que supriria suas necessidades físicas por um tempo, mas que a Terra ainda estava em processo de aprimoramento e transformação e que ela, Lilith, teria que suportar todos esses ciclos até que o planeta estivesse pronto para receber seus novos habitantes e que ela deveria colaborar na evolução desses novos habitantes, compartilhando seus conhecimentos quando eles já estivessem prontos para compreendê-los.

Mesmo sabendo que sua missão não seria fácil, Lilith a aceitou. Adão chorou por dias o amor perdido e Deus apiedou-se dele e de uma de suas costelas, fez para ele uma nova companheira. Lilith então foi levada a Nod e lá se estabeleceu.

Teorema

Inspirada numa piada

Engraçado como que para tudo ele tem uma teoria.
Não, essa não é uma qualidade exclusivamente sua.
Na verdade, todas as pessoas têm uma teoria sobre alguma coisa, nem que sejam teorias de frases feitas, pensamentos óbvios, mas, ainda assim, teorias.
No entanto, as teorias são, para ele, fundamentais, pois todas suas idéias, conversas e vivências são baseadas nessas teorias.
Enquanto escreve, elabora mais uma das suas teorias, a de que alguém lerá suas histórias e terá sobre elas, a mesma experiência que teve ao escrevê-las e então, em outro âmbito, estarão ligados, em sintonia...
Mas, essa teoria vem de encontro a outra de suas teorias mais propagadas aos quatro ventos: a interpretação depende exclusivamente de quem lê ou ouve e não de quem escreve ou fala.
Contraditório.
Suas teorias são, quase sempre, contraditórias.

Escuta

Inspirada num silêncio de Clarice Lispector

http://www.4shared.com/file/76438312/d439404b/Silncio.html


É estranho como não se fala sobre nosso silêncio interior. Temos um misto de vergonha e medo, porque ele é inexplicável e acreditamos que o outro não nos vai entender, pois, mesmo que também o tenha, não admitirá.
Mas, chega o momento em que se aceita o silêncio como o destino final da jornada vivida e, amparado pela coragem, se entra nele e vive o silêncio como se tudo vivido antes fosse um ensaio para o que se viveria agora.
O silêncio total, o vasto silêncio de quando nos deixamos reconhecer, só chega quando nada mais pode atrapalhá-lo e ele, introspectivo, não sente temor de se mostrar e se assumir como realmente é. Ocorre o medo de ter o desabrochar, despertado pelo silêncio, interrompido por algum som desavisado que se propaga no mundo exterior, mas não repercute em nosso interior.
E então o silêncio chega, aquele silêncio que, nas horas de maior ardor, imaginamos como o amante proibido e que se revela como nosso algoz, pois não chega para a troca de confidências e sim para nos fazer calar, enquanto aperta sem piedade nossas feridas.
Mas, o dia raiará novamente e o silêncio irá dormir, e sua passagem pela noite será apenas uma lembrança a espiá-lo pela fresta de uma memória sentida, do tempo passado em comunicação aterrorizadora consigo mesmo. E, nesse momento, o silêncio será mais um fantasma dentre tantos na vida.

Parafraseando

Inspirada num poeta inspirado pela lua

Nua, a Lua desfila pelo céu vagarosamente, para aqueles que são corajosos”, escreveu o poeta em um momento de inspiração.

Ela, no calor do momento da primeira leitura, achou a frase de beleza ímpar, mas não soube, realmente, deixar adentrar em seu âmago o sentido profundo das palavras.
O soco no estômago do entendimento só a atingiu exatamente no dia em que não teve coragem de acompanhar o desfile completo da lua mais desnuda que já viu.
Desde que a avistou naquela noite, as palavras do poeta lhe repercutiam na cabeça, mas julgou que fossem influenciadas pela lua magnífica que subia, jamais lhe ocorreu que fossem uma profecia sobre a noite em que deixou uma parte sua afogar-se num mar de medo e escuridão.
Por sua estúpida covardia, a lua zangou-se e sentenciou-a a dias sem noites, passados em branco, até que ela tivesse a humildade de pedir-lhe perdão.
Prostrou-se ao chão. Suplicou que lhe concedesse nova chance, mas a lua, como a amante ferida, negou-lhe a redenção.
Só lhe resta esperar que a mágoa passe e a lua ressurja, em todo seu esplendor, mas roga para que, nessa noite, tenha coragem de apreciá-la e aplaudi-la e vivenciá-la sem temores e pudores.
Chega a conjecturar que, se a lua realmente já a tivesse perdoado, teria tido coragem de amá-la intensamente?

Confissão

Inspirada num confronto diante do espelho

Esse dia foi estranho. Passou por ele como se passa por um jardim florido com o nariz entupido, sem aspirá-lo.
Essa constatação doeu-lhe. Já não tinha tempo para desperdiçar seus dias, mas desperdiçou este e, com a chegada da noite, vislumbrou a lua e, subitamente, teve uma revelação. Sempre se julgou amiga do sol, pessoa do dia, mas a fatídica verdade é que a lua, mais do que a própria noite, a inspirava como o sol jamais inspiraria.
Veia romântica? Talvez...
Essa foi mais uma descoberta que a afligiu.
O romantismo é um verme que corrói o cérebro. E a lua é um verme que corrói o estômago. Ah sim, suas emoções e inspirações são fruto do estômago e não do coração.
Uma ausência? Dor no estômago.
Uma chegada? Frio no estômago.
A lua? Embrulho no estômago.
Aliás, a temática lua a lembrou de um caso que não aconteceu, mas poderia ter acontecido duas noites atrás...
A lua estava linda. Mágica. Uma lua que dava coisas...
Há tempos não via o céu tão deslumbrante. Era um outro céu, mas ela se sentia em casa sob ele.
E essa lua, essa noite, poderia ter sido compartilhada com a única criatura que já leu seu lado de dentro e ela, fraca, não foi capaz de compartilhá-la.
Uma vez, essa criatura do outro lado do espelho a repreendeu, após um dos seus vários discursos de verdades hipotéticas, com a frase:
- Na verdade, você não é assim, não pensa assim. Só finge. Usa uma couraça para se proteger e não deixar ninguém chegar perto.
E a criatura sorriu ao vê-la empalidecer, pois ela sabia que essa era a sua verdade, mas não esperava que outrem também soubesse.
Desde esse dia, amou a criatura em silêncio. Um amor profundo, sincero, que nunca esperou ser amado de volta, mas, na iminência de sê-lo, desesperou-se e vestiu outra couraça em cima da couraça e fez de si mesma uma criatura tão blindada, que nem o poder da lua foi capaz de transpassá-lo.
Seus olhos, única parte sem revestimento, procuravam a lua insistentemente, mas a porta foi fechada, impedindo a vista da lua e os olhos, cansados, também se fecharam.
Teve frio. Teve medo. Trancada, sozinha dentro de si, sem ser capaz de compartilhar o que lhe consumia e agora, quando a lua desponta novamente no céu é que tem a consciência que seu dia de hoje, como seu dia de ontem, não foram vividos, não foram aspirados, por praga da lua, que a queria como amante, mas lhe faltou coragem para amá-la. Nem que fosse só mais uma vez.

Do dia em que ela ficou muda


Inspirada numa laringite estridulosa aguda

Falar e falar. Amar o som da própria voz, impressionar-se com suas frases de impacto e deliciar-se com a forma com que seus pensamentos oralizados repercutem no interlocutor, sempre a fizeram se sentir bem, viva...
Se alguma situação não se desenvolvia a seu favor, ela abria a boca e deixava as palavras jorrarem. Por vezes, pensava que aquelas palavras não eram suas...
Acreditava que eram fruto da memória de algo lido ou ouvido, mas, elas jorravam em tão grande quantidade que seria humanamente impossível que as tivesse lido ou ouvido todas e, então, se convenceu...
As palavras eram suas. Suas crias, influenciadas pelas palavras proferidas por outrem em determinado momento, mas ali, por ela declaradas, naquela ordem, eram suas, só suas...
Ela é que as doava e então, já não mais lhe pertenciam. Eram de outrem.
Pois bem, seu dom oratório a fez descobrir seu lugar no mundo. A fez reconhecer o princípio vital inteligente por trás da pele, gordura, carnes, órgãos... ela era, definitivamente, boa com as palavras e as palavras eram boas para ela...
Mas então, aconteceu.
Sua laringe tornou-se um corpo estranho dentro dela.
Sem aviso ou preparação, sua voz teve que se calar. A expressão sonora era tão dolorida que nem todo seu ego conseguiu superar a dor de proferir as amadas palavras. Teve que se calar.
Muda, passou a ouvir os sons do mundo, as palavras alheias, o chato, enfadonho e ininterrupto canto dos pássaros, e revoltou-se.

Por que os pássaros não se calavam? Por que ela tinha que se calar?
A língua passarinha é incompreensível e ela tinha tanto a dizer...
Depois da revolta, a consciência e reflexão.
Resultantes dessa experiência, novas palavras e idéias foram criadas dentro dela e começou a sentir-se sufocada. A dor de guardar tantas palavras tornava-se tão insuportável quanto a dor de proferi-las.


Nesse momento, começou a escrever.

A devoradora de histórias

História inspirada numa menina que roubava livros


Sempre imagino minha vida como sendo uma história contada e não vivida.
Ontem terminei a leitura de “A menina que roubava livros”, mas, para que entenda a relevância dessa constatação, preciso voltar um pouco.
Fazia tempo que eu ouvia falar sobre esse livro. Ouvia falar bem, nada sobre a história, mas ouvia falar bem do livro. Porém, nunca tive o impulso ou a oportunidade real de adquiri-lo. Havia outros títulos em pauta que também me seduziam e sempre optava por um desses outros. Até que veio a pergunta:
- Mãe, que livro você queria ler, mas ainda não tem?
Inúmeros nomes fervilhavam em minha mente. Livros que eu precisava. Mas, tive um branco e só me veio à boca “A menina que roubava livros”.
Faltava uma semana para o Natal.
No dia 25/12, a roubadora de livros chegou.



Minha primeira reação foi de alegria, mas não genuína. Um bichinho interno me dizia “por que não escolheu outro, algum dos clássicos?”. Mas, uma voz externa me consolou:
- É um dos melhores livros que já li. Demorei seis meses para lê-lo, porque a leitura é difícil, te faz refletir e, durante o dia, você olha pra alguma coisa e, na hora, faz a relação: é disso que ele (o livro) estava falando...
Essa observação despertou a devoradora de histórias dentro de mim. Ela estava dormindo há quase um ano e mal podia esperar para estar a sós com o livro e devorá-lo. Minha expectativa era altíssima, mas nem sempre isso é bom, porque a realidade nunca condiz com minhas tolas expectativas.
Iniciei a leitura na noite do dia 26 pela narrativa em si, deixando a leitura da capa, contra-capa e orelha para o dia seguinte e foi aí que analisei o livro como um todo e fiquei genuinamente feliz. Minhas considerações e reflexões resultantes do primeiro dia de leitura estavam no caminho certo, pois, no verso do livro tinha uma chamada que eu não notei antes:
“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler”.
A morte tem sido uma sombra em minha vida, mas esse não é o tema dessa história, o assunto é a fome com que devorei esse livro.
Eu o carregava para todos os lugares, mesmo para aqueles em que não poderia abri-lo, mas lá ficava ele, em minha bolsa, ao alcance de minha mão e, só de tocá-lo, meu estômago parava de roncar.
Leitura difícil - como previra a consoladora. Palavras em alemão que eu não conhecia, mas as lia em voz alta dentro da minha cabeça e suas pronuncias, mesmo que equivocadas, para sempre estarão certas para mim.
O poder das palavras. É disso que trata o livro e foi isso que mais me encantou, porque não há lugar melhor para se encontrar palavras que nos livros. Os livros. Um livro salvou a vida de uma menina que roubava livros. Um livro salvou a minha vida. Não esse livro, mas um livro degustado muitos, muitos anos antes e que me transformou numa devoradora de livros.
Voltando à roubadora, no oitavo dia aconteceu algo inédito: não toquei no livro o dia todo.
Minto. Desculpe-me. Toquei-o pela manhã ao tirá-lo de debaixo do travesseiro para arrumar a cama e colocá-lo sobre a cômoda. Mas não o abri.
Nesse dia evitei a menina que roubava livros com todas as minhas forças e a razão era simples: estava muito próxima do final e sabia que estava muito perto de encontrar meu maior medo escondido na página seguinte: a moral da história.
Relutei. Tentei assistir outras histórias, ouvir outras histórias, ler outras histórias. Fiquei exausta. Deitei em minha cama. Apaguei a luz. No escuro silêncio da noite ouvi a voz da sombra:
“Venha comigo que lhe conto uma história. Vou lhe mostrar uma coisa”.
Então, ela me contou. Por duas horas e sessenta e três páginas, ela me contou o restante daquela história, mas, quando foi me mostrar aquela coisa, já não pude mais enxergá-la. As lágrimas haviam embaçado minha vista.
Se eu tivesse visto a moral da história dizendo que não devemos deixar passar a oportunidade de acarinharmos e dizermos que amamos às pessoas que amamos, provavelmente, agora eu estaria me sentindo impelida a me deixar escorregar nessas sentimentalidades.
Sorte a minha. Não vi nada disso, portanto, não me sinto culpada em guardar tudo para quando a sombra vier buscar um ou outro.
Terá que ser assim porque sempre imagino minha vida como sendo uma história contada e não vivida.