29 de jun de 2009

O dia D

Inspirada numa decisão


Sem emoção alguma, olhou-se nua no espelho.

Altura mediana, corpo esquelético, o rosto ainda era bonito, mas não tanto quanto fora outrora.

Os lábios carnudos estavam sem cor e os olhos amendoados, brilhantes em outros tempos, estavam fundos pela noite mal dormida.

Passou os longos dedos com unhas vermelhas pelos cabelos e lembrou-se que, ao cortá-los curto, pretendia ter uma aparência moderna, despojada, mas agora via que sua aparência era de desventura e desesperança.

Os seios diminutos, que a assombravam desde a adolescência, insistiam em afrontá-la na sua nudez.

Havia perdido a juventude na espera do amadurecimento do seu amor.

Sentiu-se ridícula.

Envergonhada, desviou a visão para a área do quadril, onde suas cicatrizes tornavam a lembrá-la que já ganhara e perdera muito na vida e era preciso seguir em frente, apesar de tudo.

Jamais poderia roubar o brilho da noiva.

Seria apenas a madrinha.

Madrinha no casamento do amor da sua vida.

Não iria.

Sem maiores explicações, estava decidido. Não iria.

Teve consciência que essa atitude poderia atrasar um pouco o casamento, mas jamais cancelar.

Madrinha, coloca-se outra no lugar. Noiva não.

Num último relance dramático, imaginou-o em desespero porque ela não aparecia. Atormentado por aquela ausência, ele percebia que apenas ao seu lado poderia ser feliz, mas, a noiva chegou e ele já não podia mais pensar naquela a quem um dia jurara amor eterno.

Sem que percebesse, grossas lágrimas brotaram de seus olhos e um soluço doído ecoou de sua garganta.

Num rompante, lavou o rosto na água fria da pia, pintou os lábios e decidiu ir...
... para a praia.

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