26 de out de 2009

Reviravolta


Inspirada num conto


A chuva começou a cair gostosamente na janela.
Apertou mais forte o travesseiro contra o corpo.
Suspirou. Duas semanas atrás, com aquele barulhinho bom de chuva caindo na vidraça, só teria pensado em dormir.
Hoje, só sentia falta de estar nos braços dele.
Tornou a suspirar.
Um turbilhão de pensamentos e sentimentos a assolou.
A chuva ficou mais pesada.
O clarão de um raio iluminou o quarto.
Na penumbra, julgou ter visto um vulto.
O coração disparou.
Fechou os olhos.
Prendeu a respiração.
Sentiu medo.
Não. Não podia ser o fantasma dele.
Pensou em rezar, mas logo desistiu.
Não acreditava na relevância da oração mecânica e não se sentia bem para orar.
Abriu um olho. Já não divisava nada no escuro da noite.
A chuva abrandava.
Levantou-se.
Jogou um moletom sobre a camisola.
Pegou a chave do carro e dirigiu por meia hora até um lugar específico.
Munida de lanterna, esquadrinhou o terreno.
Estava tudo como deixara.
Histericamente riu. Risada de bruxa.
Sentiu um nó na gaganta.
Histericamente chorou. Lágrimas de crocodilo.
Caiu de joelhos na terra molhada.
Beijou o chão.
Sentia falta dele.
A chuva voltou a cair pesadamente.
Ficou imunda.
Voltou para o carro.
Dirigiu devagar na volta.
Se recompôs.
Ao chegar em casa, correu pro banheiro.
Banho fervendo.
Depois, incinerou as roupas enlameadas.
Precisava dormir.
Voltou a deitar.
Iria à delegacia logo pela manhã.
Participava da equipe de buscas desde que dera parte do sumiço dele.
Lembrou-se da cena fatídica.
O ciúmes.
A briga.
A arma.
O tiro.
A desova do corpo.
Se pudesse voltar atrás...
Não podia. Estava feito.
Só lhe restava dormir sozinha.

23 de out de 2009

Todos cantam para eles


Inspirada em várias canções

O dia já começara estranho.
Estava com dor de cabeça.
Tinha perdido a hora.
Foi para o trabalho sem querer ir.
Ao abrir o email, ele havia mandado uma música.
http://www.youtube.com/watch?v=Wq0FkmcT1Jc&feature=related

Ela ouviu e chorou.
Chorou porque teve medo do que estava sentindo.
E porque estava com ressaca.
E porque só o vira 4 vezes na vida.
E porque parecia que o conhecia desde sempre.
E porque ele havia visto seu lado ruim já.
E porque teve certeza que ele desistiria dela.
E porque não o beijou como queria.
E porque não o abraçou como queria.
E porque não falou tudo que queria ter dito.
E porque estava menstruada.
E porque seu dia anterior fora péssimo.
E porque o dia atual estava muito tumultuado.
E porque ainda precisavam conversar sobre algumas coisas.
E porque a voz de Bethania ressoava em sua cabeça: Eu não existo sem você.
E porque estaria super ocupada até às 16h.
E porque ele não estava lá naquele exato momento.
E porque não queria sentir tanto a falta dele.
E porque o telefone não parava de tocar e ninguém respondia.
E porque teria um compromisso acadêmico à noite.
E porque queria que ele soubesse.
E porque não fazia a menor idéia do que queria que ele soubesse.
E porque o coração estava acelerado.
E porque Marisa Monte cantava A sua no rádio.
E porque todos cantavam para eles agora.
E porque estava com sono.
E porque ficaria pensando nele o dia inteiro.
E porque todos os caminhos a encaminhavam para ele.
E porque teria que parar de escrever e voltar a trabalhar.
Suspirou fundo.
Lembrou-se de Céu.
Havia mandado uma mensagem a jato, às entidades do tempo.
E já fora verificado que nem mesmo haveria segundos.
E que os minutos seriam reavaliados e a cada suspiro seriam 10 contados.
Suspirou novamente. Mais fundo.
Esperava que o dia passasse logo para vê-lo e, finalmente, poder parar de chorar.

20 de out de 2009

Viagem


Inspirada numa vontade

Depois de muitos desencantos, o encontro deles havia sido encantador.
Rapidamente criaram laços.
Riam por qualquer coisa.
Conversavam por horas a fio.
Ele cantarolava.
Ela dançava mambo.
Pareciam duas crianças.
Eram duas crianças felizes.
Sem mais delongas, ela o convidou:
- Vamos fugir para Pasárgada!
- Pra onde?
- Para Pasárgada.
- Com você eu vou.
- Vamos já?
- Farei as malas. Quanto tempo em Pasárgada ficaremos?
- Que tal pelo tempo que durar? 
- Assim já cantava Marisa Monte.
- Paráfrase do Soneto da Fidelidade.
- Realmente, o poetinha já dizia isso.
- Tudo pronto para nossa partida?
- Quase tudo. Só uma pergunta: por que para Pasárgada?

Recitando Manoel Bandeira ela explicou:

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
e tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Já faz tempo que foram para lá e, pelo que dizem, de lá não pretendem voltar.

19 de out de 2009

O Jardineiro Fiel


Inspirada num trabalho


Nota: A presente postagem é fruto de um trabalho apresentado no curso de Letras para a disciplina Mídia e Educação, ministrada pelo Mestre dos Magos, Prof. Rofatto.
O trabalho quase na íntegra pode ser conferido no blog da turma:
http://dinossaurosdasletras.blogspot.com/2009/10/o-jardineiro-fiel-verdade-conveniente.html

O Jardineiro Fiel, baseado no livro do inglês John Le Carrè e filmado pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles (que a cada nova produção comprova seu inegável talento e maestria em trabalhos que demonstram qualidades próprias de um habilidoso, inteligente, criativo e sedutor artesão), levanta questões relativas aos duvidosos interesses e práticas de “fictícias” empresas de grande porte do setor farmacêutico.


Quando o diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes) termina sua palestra e se prepara para responder as perguntas dirigidas a ele pelo público ali presente, ele nem imagina que a história de sua vida está começando a ser reescrita.
Entre as pessoas que estão no recinto encontra-se Tessa (Rachel Weisz, em premiada e exuberante atuação), que virá a ser a mulher de sua vida e também a pessoa que modifica completamente a sua visão de mundo.
Enquanto ele é um ascendente jovem no complexo e disputado mundo da diplomacia internacional representando a Inglaterra no continente africano, sua jovem e sedutora esposa é uma ativista política envolvida em causas humanitárias no lugar mais explorado e desumano do mundo.
Essa explosiva combinação entre o talento, a argúcia e o engajamento de Tessa e as desigualdades e injustiças vividas pelos africanos, é o motor de uma intrincada trama de interesses econômicos escusos, de grandes indústrias farmacêuticas do primeiro mundo, e a morte/desaparecimento de pobres e desfavorecidos “cidadãos” africanos.
A partir de suas investigações a jovem Tessa chega a descobertas surpreendentes que envolvem não apenas bilhões de dólares em investimentos em pesquisa e aperfeiçoamento de remédios pelas indústrias que atuam nesses países africanos, mas também os governos de importantes nações do mundo ocidental “civilizado”, inclusive a própria Inglaterra...
Essas descobertas condenam a militante política à morte e, também, a indignidade perante seu próprio e amado esposo. Quayle, que além de suas reconhecidas habilidades no campo das relações entre países, é um devotado jardineiro a combater as ervas daninhas de seu impecável quintal tem que, a partir de investigações individuais, retomar a trilha de sua mulher.
Então ele entra no jogo dos bilhões em busca do resgate do nome de sua esposa e da verdade que envolve a morte de inocentes paupérrimos no já devastado e desolado cenário africano. Sua cabeça passa então a valer muito para os caçadores de recompensas e suas imunidades diplomáticas são então esquecidas e invalidadas...
Se não bastasse esse caráter crítico e questionador, O Jardineiro Fiel ainda nos coloca em contato com a devastadora realidade de um continente perdido, a África. Abandonada pelos países ricos, sobrevivendo à custa de doações que constituem migalhas, partilhada entre tiranos locais que nada mais são do que títeres do capital internacional, a África se decompõe e se torna cada dia mais terra de ninguém em grandes porções de seu território.
As reservas naturais africanas continuam (como durante todo o século XX) sendo pilhadas pelos modernos “Pizarros” e “Hernán Cortez” em seus bem cortados ternos e com modernos celulares e notebooks. O pior, no entanto, é perceber que ocorre o esgotamento progressivo das reservas humanas. Como autênticos “vampiros de almas”, os “investidores” internacionais “sugam” o sangue, as energias e utilizam os pobres e esquálidos corpos africanos numa nova versão da escravidão dos tempos coloniais...
Até que ponto “os fins justificam os meios”? Lucrar não é proibido. O que não pode ser admitido é que os lucros sejam obtidos a partir de qualquer tipo de exploração humana. Escravidão, baixos salários, condições insalubres, horas excessivas de trabalho e tantas outras indignidades e crimes contra o trabalhador e, principalmente ofensivas a própria condição humana devem ser extirpadas do mundo em que vivemos.
O Jardineiro Fiel é vacina que contém poderosos anticorpos que ajudam no combate à corrupção de valores e práticas.
Imunize-se!
Assista já!

15 de out de 2009

A sombra do vento


Inspirada num presente


Ao comemorar mais uma primavera, ganhou de presente do grande amigo um livro.
A capa acusava que se tratava de um Best Seller, com mais de 6,5 milhões de cópias vendidas no mundo.
Mas ela nunca tinha ouvido falar dele.
A contracapa avisava que a história tinha influencia de Poe e seus romances góticos.
Isso a seduziu.
O cenário era Barcelona, Espanha e o enredo girava em torno de um livreiro e seu filho e um autor e seus livros.
Suspense dos bons.
Muitas páginas.
Sentia-se realizada.
O livro passou a acompanhá-la.
Estava sempre na bolsa, ao alcance das mãos.
Exibia-o aos amigos.
O enredo na ponta da língua.
Julian Caràx, o personagem, lhe lembrava Julio Cortàzar, o escritor.
Aliás, sempre dizia que Cortàzar era a única coisa boa que a Argentina já havia dado ao mundo.
Ia dormir altas horas da madrugada, porque ficava lendo na cama.
O ritmo de leitura assemelhava-se ao que experimentara com "A menina que roubava livros".
E então aconteceu: ela adivinhou o final.
Faltavam 50 páginas ainda, mas ela já sabia como a história acabaria.
Chorou desiludida.
Abandonou o livro.
Sentiu raiva.
Começou outras leituras.
Desistiu.
Nada a empolgava.
Queria voltar a sentir aquele frio na barriga que o livro lhe proporcionara.
Acabou por retomar o livro.
A cada página, sua adivinhação se confirmava.
Antecipava na mente os acontecimentos seguintes... aquilo a estava torturando, mas não podia deixar o livro inacabado.
Aquela situação se arrastou por mais 10 dias e, no fim das contas, surpreendeu-se.
Não que o final da história tenha se alterado, mas, a forma como foi escrito encantou-a.
E ela e o livro fizeram as pazes.

14 de out de 2009

Normalmente


Inspirada num riso

Ela e seu fiel escudeiro foram ao cinema, num dia de semana, assistir "Os Normais 2".
A crítica que ouvira não era favorável.
Outros expectadores insistiam em comparar o filme com o seriado.
"Não chega nem aos pés", diziam.
Seu dia fora tão opressivo que precisava rir. Nem que fosse um riso forçado.
Ninguém na fila. Compraram os ingressos.
Foi à bombonière. Preços extravagantes. Recusou-se a pagar o que lhe pediam.
Desceu até uma grande loja de departamentos e abasteceu-se com chocolates, salgadinho e refrigerante.
Havia poucas pessoas na sala de cinema quando entraram.
Escolheram ótimos lugares.
Acomodou-se e organizou seu kit cinema.
As luzes apagaram.
A NOITE MAIS MALUCA DE TODAS surge na tela. Ela sorri.

Upside inside out

She's living la Vida Loca
She'll push and pull you down
Living la Vida Loca
Her lips are devil red
And her skins the color moca
She will wear you out
Living la Vida Loca
Living la Vida Loca
She's living la Vida Loca

Rui e Vani cantam o sucesso de Rick Martin, dando um show de dança e interpretação. A afinação, de tão patética, dá o acento cômico essencial à cena.
Ela ri. Escandalosamente, ela ri.
O resto do filme se desenrola sem grandes maravilhas ou problemas.
O que importa é que ela ri.
A primeira cena valeu o ingresso.
Ela ainda ri.
Ri e se reconhece.
No dia seguinte proclama: Vani sou eu!
Sim, normalmente, ela é uma versão de Vani.

Cotidiano


Inspirada numa cobrança

Fez um grande esforço para levantar da cama.
Olhou o relógio, 5h50.
Detestava acordar cedo.
Não conseguia entender o expediente começar às 7h.
Arrastou-se até o banho.
A água quente lhe devolveu um pouco o ânimo.
Lembrou-se que precisava escrever.
O que eu posso escrever?
Como recomeçar a anotar frases?
A palavra é o meu meio de comunicação e eu só poderia amá-la.
Jogo com ela como se lançam dados: acaso e fatalidade.
Clarice inundou seu pensamento.
Pensou no final trágico de algumas de suas histórias.
Lembrou-se das aulas de literatura.
Certamente era influencia de Poe.
Vários temas surgiram na mente.
A hora do banho sempre era produtiva.
Em voz alta elaborou várias histórias.
Mais uma vez irritou-se por ainda não ter providenciado um gravador.
Olhou para as mãos. Os dedos já estavam enrugados.
"Merda! Vou perder hora", pensou.
Apressou-se em desligar o chuveiro.
O banheiro estava tomado pelo vapor.
Alcançou a toalha. Secou o rosto.
Saiu do banho.
Escorregou.
O impacto da sua cabeça quebrou o vidro do box.
O sangue vivo misturou-se aos resquícios de espuma de sabão.
Sua vida acabava como suas histórias trágicas.