13 de jun de 2009

A Escritora

Inspirada numa contradição

Ao contrário do que se possa imaginar, a escritora não é calma, silenciosa, tímida, introspectiva, observadora e reservada.

De todas as amigas é a mais desbocada, gritona, desinibida, extravagante e excêntrica.

Sempre teve grandes ideais sociais, paixão por livros, cultura, política, cinema e música, além de um inexplicável ímã para os homens errados.

Aliás, suas histórias de amores mal-resolvidos são as melhores, as mais engraçadas, inacreditáveis e sempre rendem gargalhadas no fim das reuniões.

Sempre sorrindo, não tem papas na língua e, para desespero das amigas, tem uma opinão desbocada, na ponta da língua, sobre tudo que considere excessivo.

Certa vez, as amigas estavam em um bar, ligeiramente alcoolizadas, mas comportadamente sentadas ao redor de uma mesa na calçada, conversando e rindo, até que um rapaz estacionou o carro bem próximo da mesa delas, desceu, abriu o porta-malas e ligou o som.

No último.

Música sertaneja.

Todas fizeram careta, inclusive a vendedora que é a única, reconhecidamente, fã desse tipo de música, mas a escritora não se limitou à careta.

Elevando seu tom de voz acima da música, declarou:

- A super potência do som do seu carro deve ser para compensar a falta de potência do seu pinto.


Todos no bar riram e o rapaz, mais do que depressa, desligou o som do carro, bateu a porta do porta malas e dirigiu-se ferozmente em direção à mesa das amigas e a escritora, brava, valente e inconsequente, colocou-se em pé, derrubando a cadeira em que estava sentada e estufando o peito, apesar de seus pequenos seios, para confrontá-lo.

As amigas, de pronto, apressaram-se em arrastá-la pelos braços e tirá-la dali, pois sabiam que ela iria ridicularizá-lo ainda mais e, se ele partisse para agressão física (o que era bem possível), ela armaria um escândalo e sobraria socos e pontapés até para elas.

Assim é a escritora: instável e imprudente.

Mas, talvez pelo fato de ser a mais velha (44 dias mais velha) ou por ser a única delas que conhece a profunda dor da maior das perdas, ela é a fortaleza do grupo. O elo que as conserva juntas. A que não convida, convoca. A que, de uma forma ou de outra está sempre em contato com todas e as mantém em contato.

Ela deveria ser a última descrita, mas, como é a mais caricata de todas, talvez a descrição das demais beire a normalidade agora.

2 comentários:

  1. Isso foi no Pimenta!!!
    ahahaha

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  2. uahhahaha.. putz q história... conheço essa escritora... hehe

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