17 de mai de 2011

Blues

Inspirada numa encruzilhada


Cresceu numa casa defronte à uma encruzilhada.
Tias velhas vinham visitar a família e sempre se benziam antes de entrar na casa.
Curiosa como era, perguntava por que faziam aquilo e simplesmente diziam que era por causa da encruzilhada.
Ela ria, mesmo sem entender.
Certo dia, o neto de uma das tias, alguns anos mais velho do que ela, veio junto para a visita. Ele usava calças com as barras dobradas e cabelo armado. Tinha ares de moço rico, mas ela sabia que ele tinha a mesma condição financeira dela. Mas ele lia muito. Lia e ouvia rádio.
Ela, para impressioná-lo, sussurrou-lhe:
- Sua vó e as outras tias imitam o sentido da encruzilhada na frente da cara, toda vez que vêm aqui, disfarçado de sinal da cruz. Tenho certeza que é alguma simpatia pra tirar ruga.
Ele gargalhou. Gargalhada sonora. Era o maior disparate que já havia ouvido.
Ela ficou sem graça.
Quando conseguiu parar de rir, olhou melhor para aquela menina beiçuda, de vestido florido, cabelo mal trançado, pele cor de jambo e grandes e curiosos olhos negros e sentiu ternura por ela.
Nunca tinha sentido afeto genuíno e sincero por alguém antes, mas naquele instante, decidiu-se que iria instruí-la e ajudá-la a também sair daquele fim de mundo.
Mudou de postura, tomou a menina pela mão e foi se sentar com ela no banco de cimento do quintal.
Tirou um toca fitas a pilha do bolso, colocou gentilmente o fone nela e apertou o play.
Ela arrepiou. O lamento da voz rouca de uma mulher a fez estremecer. Nunca tinha ouvido música tão forte, cheia de sentimentos, que parecia desnudar seu interior.
- Que que é isso?
- Blues, minha cara.
- Esse é o nome da música?
- Não. Blues é uma forma musical que se fundamenta no uso de notas tocadas ou cantadas numa frequência baixa, com fins expressivos.
- Como?
Ele sorriu e a aconchegou junto à lateral de seu corpo e explicou:
- Blues é o nome do ritmo, sensual e vigoroso, que os negros americanos cantavam na época da escravidão nas plantações de algodão. É por causa do Blues que elas fazem o sinal da cruz na encruzilhada.
Ele gostou de sentir o toque daquela pele de menina-moça e resolveu dar continuidade à lição para mantê-la mais tempo junto a si.
- Diz a lenda que Robert Leroy Johnson vendeu sua alma ao diabo na encruzilhada das rodovias 61 e 49, no Mississippi, em troca da proeza de tocar guitarra. O dito teria pego seu violão e afinado um tom abaixo, devolvendo para Johnson junto com uma gaita cromada e mandado que tocasse. Johnson se tornou um dos músicos mais influentes do Blues e acabou tendo uma morte misteriosa. Todo negro que se preze, evita encruzilhada porque sabe que o diabo anda por lá. Seu vô foi maluco quando ergueu essa casa aqui. Maluco e corajoso.
Mas ela já não o ouvia mais.
O som do Blues que lhe entrara nos ouvidos, enquanto aquele corpo quente tocava o seu, despertou o diabo e, naquele momento, sua alma se vendia na encruzilhada defronte da casa, em troca de cantar Blues como a mulher que ouvira e ter aquele homem para si.

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