21 de jan. de 2009

Fim de caso

Inspirada num relato

Foi numa noite enluarada que houve a conversa.
Tornaram-se melhores amigos.
No estudo.
Na confissão.
No humor.
Na virtude.
No defeito.
Na ideologia.
No conselho
Na viagem.
No carro.
Na cama.
No bar.
Foi numa noite enluarada que houve a vontade.
Tornaram-se discretos amantes.
No estudo.
Na virtude.
No defeito.
Na cama.
No bar.
Foi numa noite enluarada que houve o mal entendido.
Tornaram-se simples colegas.
No estudo.
No bar.
Foi numa noite enluarada que houve a formatura.
Tornaram-se remotas lembranças.
No bar.

Jedi

Inspirada numa brincadeira

Para ter mais tempo de bombardear a criança com informações que julgava imprescindíveis, a mãe, nada convencional, comprava comida pronta e preparava quase todas as refeições no microondas, o que escandalizava os demais que a criticavam por não estar se dedicando de forno e fogão ao filho.
Certo domingo, preocupada com a formação cultural da criança, a mãe coloca o filho para assistir, de uma só vez, os seis episódios da saga de Star Wars.
Enquanto a criança passava o dia inteiro em frente ao televisor, a mãe ouvia censuras às suas idéias excêntricas sobre cultura, cinema, livros, músicas, guerras, políticas e histórias, com as quais doutrinava o filho.
Terminada a sessão, a mãe e a criança trocaram impressões quanto à história assistida, os aspectos técnicos do filme e sobre idéias políticas, filosóficas e musicais. Foram dormir.
A mãe sentia-se feliz com a certeza de que havia contribuído muito para o aperfeiçoamento moral e intelectual do filho, mas, ao colocar a cabeça no travesseiro, uma dúvida a assolou: “estaria queimando etapas da infância da criança?”.
Na madrugada ouviu um barulho.
De pronto levantou-se e correu ao quarto do filho.
Em pé, sobre a cama, uma criatura calçando botinas pretas e trajando calça social preta, blusa preta e capacete preto, olhou-a e explicou:
- Luke, eu sou seu pai.
Riu aliviada.
O filho continuava sendo criança.

7 de jan. de 2009

Beijo mordido

Inspirada numa distância

Um amigo em comum os apresentou. No bar.
Eram filósofos de boteco.
Alguém levantou um tema polêmico na mesa e, em breve acontecia o primeiro debate filosófico entre eles.
Por mais divergentes que fossem suas opiniões, reconheceram que ali estava um adversário à altura. Surgiu o respeito mútuo.
Ele, o mais novo da mesa, era um velho conhecedor das coisas do mundo. Pensava como pensaria uma mulher, se fosse homem.
Ela, única mulher da mesa com voz ativa, era literata e feminista. Pensava como pensaria um homem, se fosse mulher.
Empatia.
Pouco tempo depois já não precisavam de intermediários, nem de platéia, para sentirem-se confortáveis durante seus debates.
Debatiam sobre seus escritos, lugares, amor, religião, sexo, drogas e rock’n roll. Debatiam sobre praticamente tudo, exceto futebol.
Ele era avesso à bola.
Ela era fanática.
Ele achava engraçado como ela ficava rememorando as conversas e criando novas teorias e argumentos.
Ela achava engraçado como ele tinha memória curta, de galinha velha, satisfazendo-se com uma só versão para as coisas.
Às vezes ele sumia.
Outras, ela sumia.
Tinham suas vidas paralelas.
Ele era poeta.
Ela era contista.
Apesar de suas diferenças, havia amizade entre eles. E havia o beijo com uma mordida no meio.
Gostavam dos beijos mordidos tanto quanto gostavam dos debates.
Gostavam de suas diferenças.
Gostavam de poder continuar com suas vidas paralelas.
Ele foi embora para divulgar suas poesias pelo mundo real.
Ela ficou para divulgar seus contos no mundo virtual.